Qual número ideal de mortos em acidentes de trânsito?

Luiz Papillon

Na cidade de São Paulo durante o ano de 2019, um total de 874 pessoas perderam a vida devido a violência no trânsito, ou seja a cada 10h uma pessoa morreu na cidade de SP. Desse total 36 ciclistas foram vítimas. Já respondendo a pergunta do título o número ideal e aceitável é apenas um: ZERO. Você pode pensar que estou sendo radical, por isso começo falando de um exemplo que conseguiu zerar os óbitos.

Tolerância zero com acidentes de trânsito: Oslo zera vítimas de atropelamentos

Um projeto multinacional de segurança no trânsito foi criado em 1995, chamado Vision Zero trabalha junto a autoridades locais e indústria em busca da prevenção à acidentes. O princípio do programa é a visão de que a vida e saúde não podem ser trocadas por outros benefícios na sociedade. Ao invés da tradicional comparação entre custo e benefício onde um valor monetário é atribuído a vida e bem estar.

Ciclistas em Oslo | foto Kevin Mayne

O programa desde então passou a ser adotado em cidades e regiões pelo mundo como Canadá, Reino Unido, Suécia, Noruega e na República Dominicana, além de algumas cidades e estados estadunidenses. Oslo, capital da Noruega com pouco menos de 700.000 habitantes é a cidade com maior sucesso na política de zero acidentes, em 2018 apenas uma vítima fatal durante o ano todo na cidade, oriunda de um motorista que avançou sobre uma cerca. Zero atropelamentos com vítima. Contando toda Noruega, nenhuma criança morreu em acidentes durante 2019, e a população é superior a 5.3 milhões de habitantes.

Medidas foram adotadas a partir de 2017

Você pode estar pensando que isso é impossível de se atingir em uma cidade como São Paulo. Mas precisamos começar em algum ponto, Oslo tomou medidas mais enérgicas a partir de 2015 com implementação apenas em 2017. Foram elas:

  • Remoção de vagas de estacionamento públicas.
  • Adoção de calçadas mais largas.
  • Instalação de mais ciclovias.
  • Melhorias no sistema de bicicletas compartilhadas.
  • Proibição de carros em determinadas áreas centrais.

Tais medidas levaram a redução do nível de emissão de gases poluentes pelos veículos em 36% quando comparados com a década de 1990. A previsão é de atingir 50% em 2022 e 95% em 2030. Esses objetivos só foram possíveis com o encorajamento a bicicleta, levando as pessoas a mudar hábitos e oferecendo uma infra-estrutura segura e integrada aos transportes públicos.

Cidade de São Paulo, 874 mortos sendo 36 ciclistas apenas em 2019

Voltando ao terceiro mundo, nos deparamos com estatísticas alarmantes. Em São Paulo apesar do número total de vítimas estar caindo anualmente, as metas da ONU para 2019 não foram batidas. Alguns “especialistas” creditam o aumento de mortes de ciclistas especialmente ao aumento do número de usuários de bicicleta, o que além de carecer dados estatísticos é amparado pela relação custo x benefício. Isso é inaceitável, e além disso possui uma incoerência que pude averiguar. Praticamente todas os ciclistas mortos no trânsito estavam em uma região sem infraestrutura cicloviária.

Campanha Hoje não | Prefeitura de São Paulo

Outro fator apontado pelos “especialistas” é o aumento do serviço de bike-entrega. Porém a estatística disponível no cruzamento dos dados da CET com o Infosiga mostram outra realidade. A maioria dos ciclistas mortos no trânsito, são mortos na periferia e no período da manhã, ou seja no deslocamento para o trabalho. Outro dado é em relação a idade das vítimas, a maioria das vítimas estão na faixa etária dos 30 aos 49 anos, portanto distantes do perfil do jovem que trabalha com entregas.

Um fator em comum com os atropelamentos sofridos por ciclistas e pedestres em São Paulo está na própria hierarquia viária. É praticamente impossível chegar ou sair de São Paulo sem utilizar uma rodovia. Assim pedestres e ciclistas sofrem mais na chegada a São Paulo de grandes rodovias como a Bandeirantes, Raposo Tavares, Ayrton Senna, Dutra e Anchieta. A velocidade alta dos veículos ainda em ritmo de auto-estrada acaba por provocar muitos acidentes. O mesmo fato é observado em cidades que margeiam essas rodovias como São José dos Campos.

Muitas vezes os próprios veículos da imprensa ilustram matérias de morte de ciclistas com imagens de ciclista em ciclovias. O que leva ao engano maior, de creditar a prática de pedalar uma atividade de alto risco. O que podemos observar é que apesar do grande aumento no número de ciclistas nas regiões com infraestrutura cicloviária, os acidentes em especial fatais não acompanham tal escalada.

Maior impacto na redução de vítimas é acalmar o trânsito

Ao invés de uma grande obra de impacto viário com custo bilionário, o que mais impacta na prevenção à acidentes é tornar o trânsito mais calmo. Para tal não adianta apenas reduzir os limites de velocidade e espalhar radares nos locais de maior índice de infrações. É necessário utilizar táticas que vão além do tradicional, preparei uma galeria com imagens que ilustram:

  • Redução do trecho de faixa de pedestre alargando a calçada na proximidade com esquinas.
  • Adoção de parklets, estruturas que ocupam o espaço e impactam no estreitamento visual da via, reduzindo naturalmente a velocidade.
  • Utilização de faixa de pedestre elevada, favorecendo a travessia de pedestres.
  • Barreiras físicas para promover a segregação de pedestres e ciclistas para com veículos automotores.
  • Ciclovias integradas ao transporte público e bicicletários.
  • Restringir totalmente o trânsito de veículos em determinados pontos ou centros urbanos afim de  favorecer a caminhada.

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