Deus e o diabo na Terra do Sol: Lance Armstrong

Luiz Papillon

Um dos maiores filmes brasileiros chama-se Deus e o Diabo na Terra do Sol, onde o protagonista é ao mesmo tempo herói e bandido. Assim Glauber Rocha contou o conflito de terra entre o sertanejo Manuel e um latifundiário. No ciclismo profissional neste século um nome figura exatamente como Deus e Diabo: Lance Armstrong.

Lance Edward Gunderson nasceu em 18 de setembro de 1971 na cidade de Plano no Texas. Foi o primeiro e único ciclista a ter sete títulos do Tour de France, mas foi demovido de suas conquistas e banido do esporte pela vida em um grande escândalo de conspiração e doping. Lance cresceu no subúrbio da cidade de Dallas criado por sua mãe Linda. Demonstrando aptidão atlética desde criança, iniciou correndo e nadando aos 10 anos de idade. Aos 13 já disputava categorias de base no ciclismo e triatlo e três anos mais tarde tornaria-se triatleta profissional. Com dezenove anos Lance conquistara o bicampeonato americano de triatlo sprint (metade da distância do triatlo olímpico).

O início em Dallas

Logo depois Armstrong escolheu manter o foco no ciclismo, seu esporte favorito e onde mais se destacava. Durante o segundo ano no colegial foi convidado para treinar  com a seleção americana olímpica no Colorado. Os triunfos começaram a serem empilhados, já em 1991 Lance venceu uma etapa do Tour Dupont (que em 1989 chamava-se Tour de Trump e conto a história aqui). Outra vitória na Settimana Bergamasca e um segundo lugar na seletiva americana para os jogos olímpicos de 92 foram suficientes para o convite e Armstrong assinou com a equipe Motorola.

Lance Armstrong – Motorola Team Poster 1996

Em 1993, Armstrong seguiu com conquistas em especial no EUA e seu auge foi aos 21 anos de idade vencer o Mundial de Ciclismo em Oslo na Noruega batendo Miguel Indurain. Armstrong venceria entre 94 e 96 algumas etapas do Tour de France, utilizando uma bicicleta Caloi. Ao final de 1996 a equipe Motorola seria desmantelada e Lance Armstrong assinou com a Cofidis para 1997.

O Câncer e o retorno a competição

Lance Armstrong recuperando de cancer | arquivo pessoal

Dois meses após assinar com a Cofidis,  Lance foi diagnosticado com câncer testicular e que já havia se espalhado para seus pulmões e cérebro. Imediatamente seguiu para cirurgia e quimioterapia e que segundo seus médicos seriam suas melhores chances de sobrevivência. Após o tratamento, Lance desfez o contrato com a Cofidis, assinando então com a nova equipe norte americana a USPS.  Lance voltou a competir e em 1998 venceu o Tour de Luxemburgo, alguns meses depois conquistou um quarto lugar na Vuelta e de ciclista clássico passou a favorito para grandes voltas.

Sete vitórias do Tour de France seguidas

Em julho de 1999 Lance Armstrong tornou-se o segundo americano a vencer o Tour de France após Greg Lemond. Sua equipe agora chamava-se USPS, os Correios americanos e Armstrong tornara-se o verdadeiro Capitão América. Durante o Tour de 99 Armstrong enfrentou contudo seu primeiro envolvimento com o doping. A presença de traços de corticoesteroide, que foi creditada ao uso de uma pomada para assaduras. A UCI o liberou das acusações embora a imprensa tenha acendido a luz amarela. Lance não venceu apenas um Tour, venceu sete vezes consecutivas até se aposentar em 2005.

O retorno e a aposentadoria para Armstrong

Na preparação para a temporada de 2009, Lance Armstrong anunciou que voltaria a competir, conquistou o terceiro lugar no Tour de France de 2009, vencido por Alberto Contador. Em 2010 Armstrong competiu mais uma vez com foco exclusivo no Tour e embora tenha apresentado uma performance excelente em alta montanha nos Pirineus, concluiu em 23º lugar. Naquele ano Alberto Contador venceu porém logo depois teve o título cassado por doping. Ao final da temporada Armstrong anunciou que abandonaria o ciclismo europeu e correria por uma equipe continental americana, no começo de 2011 anunciou o que foi sua saída final do ciclismo profissional.

O marketing, a fundação e o legado esportivo

Pulseira Livestrong

Durante o estrondoso sucesso do retorno de Lance Armstrong ao ciclismo após sofrer com câncer, Armstrong virou um sucesso sem precedentes. O modo como os patrocinadores interagiam com o ciclismo mudou, e Armstrong tinha quadros, rodas, camisas, todos itens “projetados para Lance Armstrong”. Além disso em 1999 Lance Armstrong criou a fundação Lance Armstrong para melhorar a condição de vida dos sobreviventes de câncer. Com grande sucesso e apelo a fundação cresceu e chegou a patrocinar aliga de futebol (Major League Soccer). Desde o escândalo de doping em 2012 as receitas da fundação rebatizada Livestrong chegaram a cair para menos de 1 milhão de dólares anuais. Porém um novo presidente e uma campanha sem associação com o ciclista elevou a receita para ordem de 40 milhões de dólares anuais.

O legado de Armstrong para o ciclismo começa no modo como ele gerenciou o patrocínio e marketing elevando o valor do ciclismo e do ciclista e termina no lado oposto. O dano a imagem do ciclismo com seu escândalo de doping é imenso e sem dúvida colaborou para o banimento para vida.

O lado demônio da fera

Os primeiros relatos de doping de Lance Armstrong remontam do envolvimento com o médico italiano Michele Ferrari. O médico que chegou a comparar o uso de EPO a suco de laranja teve inúmeros clientes tendo sido apresentado a Armstrong por ninguém menos que Eddy Merckx. Em 1995 Ferrari abriu sua clínica e além de Armstrong preparou inúmeros ciclistas como Vinokourov, Cipollini, Cadel Evans, Claudio Chiappucci, Gianni Bugno.

Em 2004 um livro foi publicado alegando o uso de doping por Armstrong. A fonte do livro foi a soigneur Emma O’Reilly que sofreu a fúria de Armstrong por conta das histórias contadas.

Em 2005, ano do sétimo título, o jornal L’Équipe noticiou que amostras da urina de Armstrong congeladas desde 1999 davam positivo para EPO (eritropoetina). E o calvário de Armtrong mentindo para todos com a frase:

“Eu nunca tomei nenhuma droga de aumento de performance”

Em 2006 o jornal Le Monde publicou que o casal Betsie e Frank Andreu (ciclista capitão da seleção americana e companheiro de Armstrong) testemunharam Lance assumir para seu fisiologista o uso de doping logo após sua cirurgia no cérebro em 1996.

Em 2010 o ciclista Floyd Landis enviou um email para a USADA (Agência Antidopagem Americana) indicando que ele e outros ciclistas, em especial Lance Armtrong tiraram vantagem esportiva com uso de drogas proibidas. A investigação foi então aberta e em fevereiro de 2012 Lance conseguiu sair sem indiciamento. A promotoria da USADA passou então a investigar pesadamente o ciclista e em junho daquele ano um processo sólido foi instaurado.

Armstrong reagia brutalmente contra qualquer acusação de doping. Durante toda década de 2000, Armtrong sempre dizia que fora submetido a mais de 500 testes sem nenhum positivo. Muitos jornalistas foram processados para afastar não só a acusação, mas também como modo de pressão afim de desestimular matérias contrárias ao ciclista. A soigneur Emma O’Reilly foi sem dúvida uma das pessoas mais afetadas, já escrevi sobre ela aqui:

https://www.pelote.com.br/sexismo-no-ciclismo-emma-oreilly-x-lance-armstrong/

Além de todas insinuações, há relatos da coperação da própria UCI em esconder o doping do ciclista, nessa parte há tanto material que não caberia nesse texto, fica para uma próxima.

Insinuações de doping, e a investigação da USADA

As acusações envolviam o uso do hormônio eritropoetina, transfusões sanguíneas e injeções de testosterona. No mês de agosto de 2012, Armstrong abriu mão do direito a defesa e a USADA retirou dele todos os prêmios e conquistas de 1998 em diante, incluindo seus sete títulos do Tour de France, além de o banir para sempre do esporte. Em janeiro de 2013 durante uma entrevista para a apresentadora Oprah Winfrey, Armstrong admitiu que utilizou substâncias proibidas e transfusões de sangue entre a volta do câncer até 2005.

Em consequência do escândalo, Armstrong perdeu todos seus patrocinadores, foi processado pelo governo americano em função da verba utilizada pela USPS ser federal em um processo superior a 100 milhões de dólares. Além disso deixou a presidência da fundação Lance Armstrong que mudou seu nome para Fundação Livestrong.

O podcast devolve Armstrong ao ciclismo e um investimento salva suas finanças: UBER

Lance Armstrong durante o Podcast The Move | Captura de Tela

Pai de cinco filhos, Lance Armstrong quase foi a bancarrota em função dos processos contra ele por trapacear no esporte. Porém um dos maiores investidores de risco da história, Chris Sacca, fundador da Lowercase Capital indicou para Armtrong o investimento em uma empresa “pequena” a Uber. Armstrong investiu cerca de USD 100.000 na empresa que hoje vale 120 bilhões. E em entrevista a CNBC, Armstrong admitiu que esse investimento salvou sua família.

“Eu sequer sabia o que eles faziam na Uber. Eu pensei que ele estava comprando cotas do Twitter de empregados ou antigos empregados e o grande investimendo no fundo da Lowercase foi na Uber” Lance Armstrong

Acabou mas tem mais, mesmo banido do ciclismo, Armstrong passou para o outro lado da bancada. Como comentarista. Muito bem humorado, fazendo piadas consigo mesmo e inclusive com a questão do doping, Lance Armstrong mais uma vez se reinventou e vem a duas temporadas comandando o podcast The Move (O movimento) vem crescendo em audiência e de certa forma entregando outra faceta do texano para o mundo.

Além dos investimentos Armstrong mantém a loja Mellow Johnnys em Austin onde diversas de suas bicicletas encontram-se penduradas. E tem a marca Wedu Sport (que hospeda seu podcast) de roupas e acessórios de ciclismo.

 

Ficha técnica:

  • Nome: Lance Edward Armstrong (nascido Lance Edward Gunderson).
  • Apelidos: Le Boss, Big Tex, Juan Pelota
  • Altura: 1.77m
  • Peso: 75kg

Equipes:

  • 1990-1991 Subaru Montgomery
  • 1991 Seleção Norte Americana
  • 1992-1996 Motorola
  • 1997 Cofidis
  • 1998-2005 USPS
  • 2009 – Astana
  • 2010-2011 – RadioSchack

Principais vitórias:

  • 7x Tour de France (1999 a 2005, títulos cassados).
  • Medalha de bronze jogos olímpicos 2000 (medalha cassada)
  • Mundial de ciclismo 1993
  • Classica San Sebástian 1995
  • La Flèche Wallonne 1996

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