Boonen e Evenepoel, uma resenha entre o passado e futuro do ciclismo belga

Luiz Papillon

A maior promessa belga em décadas é Remco Evenepoel. Se você não ouviu esse nome, pode ir se acostumando pois o atual campeão mundial Júnior de estrada estreia em 2019 profissionalmente pela Quick Step e fez uma resenha com Tom Boonen. Boonen aposentado desde a Paris Roubaix de 2017 e belga de maior sucesso no ciclismo neste século. A dupla falou com o jornal Het Laatste Niews. O encontro foi na Le Pain Quotidien em Wemmel em que o nome de Eddy Merckx não apareceu sequer uma vez (em fato há uma pergunta que…).

Nesse ponto abro um parenteses para explicar a situação, para a Bélgica a expectativa de um “novo Merckx” é tão importante como no Brasil “o novo Pelé” e para qualquer esportista que desponte essa comparação com o maior de todos os tempos é quase inevitável e sem dúvidas um peso que não deve ser carregado na bicicleta. O papo começa com a própria introdução do ciclismo na vida de ambos. Enquanto Boonen só passou a olhar para o ciclismo como esporte quando venceu o campeonato de sua escola aos 11 anos, Remco acompanha os jornais e provas desde os 5 anos de de idade. Isso surpreendeu Boonen que destacou o talento dele e seu irmão Svan em botar fogo em coisas no quintal.

Destaco também a experiência que Boonen coloca na mesa ao falar do período de explosão da mídia social que pegou. Antes de Boonen os atletas e personalidades tinham vida privada e Tom foi um dos primeiros a sentir na pele a voracidade da mídia online e a perca da privacidade.  E assim Tom Boonen introduz Remco no pelote profissional.

Vocês já se encontraram anteriormente?

Boonen: Duas vezes. Uma vez sóbrio e outra alegre. (risos)

Evenepoel: Conta você, quase não me lembro.

Boonen: Nos encontramos no jubileu da Latexco, festa! Nossa primeira conversa remonta ao final de junho, durante uma prova em Oetinger organizado por parceira comercial, uma concessionaria Volvo.

Evenepoel: Foi como se nos conhecêssemos há uma década! Pedalei nos juniores com o sobrinho de Tom, Davide Bomboi e isso ajudou a quebrar o gelo.

Você tinha cinco anos de idade quando Tom venceu a primeira de suas três vitórias na Ronde Van Vlaanderen (Volta a Flandres) em 2005 e tornou-se campeão mundial em Madri.  Quando o jogador de futebol do Anderlecht acordou?

Evenepoel: Certamente eu jogava futebol por puro prazer, nessa fase não havia planejamento de seguir carreira profissional. Meu pai que foi ciclista me deu uma bicicleta. Gostei disso e pedalava aos sábados e nos domingos sempre acompanhava uma prova na TV, na média era o meu final de semana. Nos jornais eu sempre olhei os resultados de ciclismo e futebol. Eu sabia perfeitamente quem era Tom.

Boonen: (Surpreso) Naquela idade eu não estava totalmente envolvido com esportes. Não foi assim em casa, eu e Svan (irmão de Boonen) sempre íamos para o quintal brincar. Construíamos acampamentos, queimávamos coisas. Com 11 anos de idade ganhei o campeonato da escola e pela primeira vez me ocorreu que eu poderia correr. Foi só durante os juniores que comecei a amar o ciclismo.

Depois daquele título mundial, de repente todo o país parou. A Bélgica enlouqueceu.

Bonnen: O termo “hype” surgiu. Houveram muitas ocasiões, você sentia que tudo estava mudando gradualmente. O tímido surgimento de fóruns na internet e o aumento da mídia social. Especialmente desse ângulo a pressão aumentou. Eu também fui um dos primeiros ciclistas a ser questionado em qualquer lugar fora do ambiente de prova. Você sabia que eu tive até um poster no Joepie (revista popular no estilo da brasileira Capricho)?

Evenepoel: Não, realmente? Oh…

Bonnen: Então, você não pensa em fazer isso na vida? (risos) Foi mesmo uma loucura.

Tenho a sensação de que todo esse entusiasmo esta acontecendo agora mesmo Remco. Em todo o país, clubes de fãs crescem como mato.

Evenepoel: Mas…

Boonnen: (cortando) Verdade! Você sabe o que eu quero que essa marco seja? Pessoas que não sabem nada sobre ciclismo falam comigo sobre você. Diga-me sobre Remco Evenepoel, certo? A fundação foi concretada.

Evenepoel: Por enquanto sem extremos. Eles não acampam em nosso jardim, não pedem foto ou autógrafo. Eu ainda posso como qualquer pessoa normal comprar linguiça no açougueiro da esquina. Percebo que as pessoas me reconhecem mais rapidamente. Recentemente eu andava com Oumi (a namorada, Oumaima Rayane) no shopping em Antuérpia quando alguém de repente gritou: Ei você! Você não é o campeão mundial? Eu: Sim, sorri. Isso faz parte? Claro! Eu tendo não entrar muito na onda. Passaram dois meses desde o mundial de Innsbruck. Pode ser um pouco chato. Há outras coisas mais importantes.

Deixe-o respirar, é o que você aconselha Tom. Mas ele conseguirá esse espaço para respirar?

Boonen: Todo mundo quer algo de você, seja seletivo e tudo ficará bem.

Evenepoel: Eu já conversei extensivamente com Patrick (Lefevere). Eles aprenderam muito com a fase principal de Tom na Quick-Step e após isso o “sim” foi dito.

Boonen: Especialmente nos primeiros anos. De repente uma bomba explodiu e ninguém tinha experiência com isso. Você agora chega a uma equipe que já passou por algumas tempestades.

Evenepoel: (concordando com a cabeça) Eles sabem como lidar com essa situação.

Fique longe desse treinamento de mídia Remco. Seja você livre e espontâneo como Tom tem sido.

Boonen: (olhando indignado) Como? Agora nem mais há o porquê?

Bem, mas admita: Você gradualmente tornou-se mais cauteloso.

Boonen: Porque o abuso já tinha acontecido! Após a era Musseeuw / Van Petegem, em que cada palavra era cuidadosamente considerada e ponderada, alguém finalmente ousou dizer algo diferente do discurso habitual. Funcionou de forma refrescante mas ao mesmo tempo significava perigo. Você vai aprender Remco, não deixe que tudo saia de sua boca ao mesmo tempo sem perder a espontaneidade.

O fato é: Ele rapidamente conquista almas.

Boonen: É bom olhar para ele.

Evenepoel: O que faço, faço com vontade e prazer. Caso contrário nunca poderia ser bom. Essa é minha logica.

Você se vê nesse garoto Tom? O jeito que ele é na vida? Essa hiperatividade?

Boonen: É assim mesmo?

Evenepoel: Eu não consigo ficar parado!

Boonen: Opa, nem eu. (risos)

Evenepoel: A noite eu realmente preciso fazer alguma coisa e ir dormir. Se não… eu continuo ocupado. Então eu já fico ansioso para a manhã seguinte para o momento em que eu puder levantar, tomar café da manhã e pedalar.

Boonem: Que bom que você possa canalizar essa turbulência para sua bike.

Evenepoel: Tudo deve ser também pontual. Ah, mas se algo inesperado acontece meu relógio vira de cabeça para baixo! E se eu não puder fazer tudo o que tinha em mente, então fico perdido, viro um a menos.

Boonen: Sim, porque você também precisa aprender a lidar com isso.

Evenepoel: O Mundial foi na verdade um ótimo teste. O plano A não funcionou por conta da queda. Queríamos apenas começar como uma equipe. “Ok pode acontecer, então planeje B ou C”.

Havia também um plano C?

Evenepoel: (risos) O sprint!

Boonen: O plano era ele simplesmente tirar todo mundo.

273.897 pessoas assistiram o Mundial. Audiência de 49,9% gigantesco para uma corrida júnior em uma quinta feira.

Evenepoel: A chegada foi por volta das 18h, depois as pessoas já chegaram do trabalho em casa. E eu já fiz a propaganda no contra-relógio.

Boonen: Eu não comecei a assistir a última hora sozinho. Quando você já tinha se recuperado foi loucura pura! Apenas quando pensei: Ele ainda esta tendo problemas com o alemão na roda, então você acelerou. Fim de  jogo, algo raramente visto.

Evenepoel: Houve um pequeno sinal mental nessa subida, onde mantive a mesma cadência e de repente passei de 420 para 650 watts. Aquele tiro curto de não mais de dez segundos deu o golpe fatal em Mayrhofer.

É o que ele está fazendo Tom!

Boonen: Todos! Hoje em dia não há mais categoria de jovens, eles são todos profissionais.

Evenepoel: O ciclismo em 2018 é feito em torno de potência. Os treinadores elaboram cronogramas de treinamento e os usam como um indicador de valor.

Boonen: Em 1999 fui um dos primeiros ciclistas belgas a treinar com um medidor SRM. Mas também houve anos em que acabei por treinar sem.

Evenepoel: Para os longôes eu deixo de lado (o potenciômetro). Eu treino especialmente em alta cadência, essa é minha marca registrada.

Você já viu muita qualidade Tom, como você avalia isso?

Boonen: Nos meus primeiros anos, você tinha dois super talentos alemães: Eric Baumann e Torsten Hiekmann. De categoria especial Hiekmann campeão mundial de 1997 foi o melhor dos dois. Baumann era mais clássico. Eles foram profissionais por um bom tempo, inclusive na T-Mobile. Mas no final os dois foram embora. Você não tem garantias claras para uma carreira de alto nível vindo do júnior. Existem muitos fatores que podem influenciar isso: seu próprio crescimento e desenvolvimento, mas também sua situação familiar, equipes que entram, miséria física… Sem mencionar o aspecto mental. Eu acabei por ver muitos desses caras quebrarem na cabeça. Muito fraco, muitos planos, categoria para vencer mas sem resistência. Com o envelhecimento sinto mais como as pessoas se encaixam e eu os escolho assim.

Faça uma previsão para Remco

Boonen: Se ele puder estender sua evolução…

Evenepoel: Meu números de teste são o que são, eles não mentem. Mas como Tom diz: pode ser completamente diferente para os profissionais. Percebo que logo vou andar contra homens com muito mais força e experiência. Aqueles três quatro degraus mais altos que eu. Um nível que eu quero alcançar um dia. Eu vou trabalhar duro para isso, junto com o pessoal da equipe. Concentro-me na margem de crescimento que ainda acredito. E não me dê muitos exemplos do passado.

Boonen: Você não pode fazer sua conta. Com essa atitude você percorreu um longo caminho. Eu mesmo não era mo mais cauteloso da minha época. E certamente não do seu calibre Remco. Era muito magro e só cresci no sub23. Ganhei dezessete corridas com os juniores mas também ganhei 36 vezes com Gert Steegmans (principal embalador de Boonen na Quick Step).

Outra pessoa em que você pensa: Havia mais nela!

Boonen: Fisicamente pelo menos meus colegas. Com um sprint que poderia ser até melhor que o meu, mas… mentalmente delicado quanto eu sei…não sei o que.

Você terá que aprender a perder novamente Remco?

Evenepoel: Eu posso lidar bem com isso. Um legado da minha vida anterior (no futebol).

Boonen: Como? O futebol ainda é um esporte de equipe?

Evanepoel: Sim, mas como capitão do time e extensão do técnico em campo, eu ainda tinha certa responsabilidade. E assim eu tive a experiência de não conseguir vencer uma partida contra o Brugge ou o Standard Liege no campeonato. Vou aproveitar essas experiencias e me fortalecer para enfrentar novos contratempos.

Boonen: Eu não suportava derrotas quando jovem, eu ficava mal fisicamente com isso. Especialmente quando perdia por culpa de outra pessoa, eu queria cortar a cabeça dele!

Evenepoel: (sorrindo) Eu conheço o sentimento, isso de corrói por dentro.

Boonen: Mais tarde como profisisonal pude encarar de um modo mais fácil. Mas houve momentos em que quase quebrei tudo. Na Omloop de 2015 por exemplo, colocamos três (Terpstra, Vandengergh e eu) no grupo líder de quatro com Ian Stannard. Eu havia previsto (o que Stannard iria fazer) e foi o que aconteceu, eu poderia vencer Niki (risos) Mas…! São quinze minutos ligado e gritando uns com os outros e então você diz: “Ok amanhã iremos novamente para Kuurne (Kuurne -Bruxelas – Kuurne). Niki (Terpstra) também é assim, você reconhece os grandes as vezes o pau tem que quebrar.

Evenepoel: Concordo totalmente

Remco sonha em andar as três grandes voltas…

Boonen: Eu fiz isso também.

… o que quero dizer, um ciclista clássico como você Tom, pode dar-lhe um conselho.

Boonen: Assim, minha primeira grande volta foi a Vuelta 2003, que também foi a mais rápida de todas em plena era EPO com a Espanha correndo por fora. Lá você tinha trens com 30 motorzinhos todo dia, não era normal! Eu tinha 22 anos e pensei que iria morrer, gradualmente tenho visto isso mudar, evoluir, mas o período em que a USPS e a T-Mobile lutavam uma contra a outra no Tour foi desconfortável. Mesmo que eu não buscasse uma classificação. Mas na manhã da minha vitória na Champs Elysee em 2004 levantei com um hematócrito de… 35,6. Eu quase não pude largar eu estava tão quebrado…mas eu ganhei e vi que era possível.

Evenepoel: Agora os jovens também conseguem subir (Alta montanha). Enric Mas é um bom exemplo disso. Você não viu isso dez anos atrás.

Boonen: É um trabalho que ainda não começou. Se você pesa 40, 60 ou 80kg você atinge um limite natural que … outros 30 estavam buscando. Você ainda pode treinar tanto ou ter mangas: esqueça. Ainda bem que eu nunca tive que fazer essa escolha. E assim eu podia desenhar meu plano nas clássicas.

Estamos esperando um novo vencedor de magnitude por 40 anos, apenas continue.

Boonen: As possibilidades estão aí. A vontade também  Então há muito. Apenas….Até agora você era o padrão Remco. Você determinou a barreira sozinho. Agora você tem que detonar contra homens que são dez ou vinte por cento melhores. Eles vão te forçar a sair da sua zona de conforto, só então você saberá onde você está. E o que você pode realmente conseguir.

Evenepoel: Tenho um bom contra-relógio na pernas, posso subir bem e recuperar rapidamente. As três condições para crescer e chegar num nível maior. Se você realmente quiser fazer isso, faça isso agora mesmo, com total entrega, foi o que Lucien Van Impe (ciclista clássico de sucesso nos anos 70) me disse recentemente ao telefone.

Boonen: Você vai perder, você sabe. Mas Lucien está certo: concentre-se totalmente naquilo em que você se destaca. Os caras top mesmo podem ganhar o Tour aos 22, 23 anos. Isso geralmente vem muito rapidamente e então isso se esvai novamente. Então tente conquistar o mais rápido possível, você nunca sabe o que vai acontecer depois.

Temos que cuidar desse menino, diz Walter Planckaert. Ele está certo.

Boonen: Eu diria: apenes deixe-o em paz.

Evenepoel: Eu principalmente que tenho de fazer isso. Juntamente com Patrick e toda a equipe. Nó somos melhores com Deceunick Quick Step, eu não posso parar. Uma equipe com mentalidade de vencer e eu me encaixo totalmente nesse perfil.

Boonen: Com o seu programa (máximo 55 dias de prova, com corridas de menor nível) já é bom. No começo fácil na Argentina, há renda garantida, longe de tudo e de todos.

Evenepoel: Aguardo com incredulidade. Para começar um novo capítulo, descobrir um novo mundo. E só para estar preocupado com minha bicicleta. Faça o que você tem que fazer, se você gosta de fazer isso novamente, então essa é a melhor coisa que existe, certo?

Boonen: Ciclistas profissionais são: Oh! Jovens felizes incapazes de sentar numa cadeira depois do meio dia. Sim esse é o meu trabalho agora, isso não é mais permitido. (risos) O que você tá fazendo aqui? Oh boy…

Vamos concluir com uma ode a “força silenciosa mas trabalhadora” em toda essa história? Porque o treinador da seleção júnior Carlo Bomans merece de qualquer modo.

Evenepoel: Absolutamente, Carlo é o homem que me levou ao sucesso. Com todas suas dicas e conselhos úteis. Nos bastidores nunca buscando público.

Boonen: Isso é Carlo, não busca holofote.

Evenepoel: No campeonato mundial, ele manteve um diálogo pessoal com cada um de nós todos os dias. “Como você se sente? Tudo bem?” Ele fez uma equipe próxima a nós. Faz o bem com jovens selecionados que eventualmente podem teimosamente sair do canto. Para mim, Carlo é o chefe de equipe do ano.

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