UCI decidirá formato do ciclismo profissional neste mês!

Luiz Papillon

O circuito mundial de ciclismo profissional como conhecemos deve mudar. Desde 2013 uma comissão vem efetuando propostas de mudanças no formato do esporte e as vésperas de mais um congresso da UCI, desta vez em Innsbruck as mudança podem ser maiores. A reforma estrutural do ciclismo tem forte apoio do atual presidente da UCI David Lappartient.

São esperadas entre as mudanças para 2020:

  • Redução no número de equipes das atuais 18 para 15 no Circuito Mundial, consequente aumento nos convites de participação em grandes voltas.
  • Combinação das provas de um dia HC e categoria 1 em um grupo chamado Pro Series com as equipes da primeira divisão com obrigação de ao menos 50 dias de competições na Pro Series por temporada.
  • Para a provas do circuito mundial, as 15 equipes ficam automaticamente convidadas, 5 convites para equipes profissionais continentais e 2 convites livres para os organizadores. As equipes continentais passam a ter uma classificação para conseguir participar das provas em função de mérito.
  • Desobrigação das equipes da primeira divisão em participar de todas as provas, as provas que não tiverem ao menos 10 equipes da primeira divisão acionarão um sistema de chaves (ainda não definido) para completar as largadas.
  • Verba mínima de orçamento em 15 milhões de euros.
  • Rebaixamento de equipes, as equipes que não obterem ao final de 2019 performance combinadas nos sistemas de classificação UCI ou não cumprirem determinações quanto a verba mínima para temporada serão rebaixadas ao status de profissionais continentais.
  • A proposta de ascenso e descenso de equipes indica ser bianual, ou seja uma equipe que desça de divisão ao final de 2019 só poderá retornar para elite do ciclismo em 2021.
  • A duração da licença das equipes também será afetada pela classificação ao final da temporada, com 4 temporadas para as 5 melhores equipes e 2 temporadas para as demais.

Essas mudanças atendem em especial as demandas dos organizadores por mais espaço para equipes menores, ainda não estão fechadas as datas para determinar quando a classificação fecha para os convites das grandes voltas. Alguns defendem dois meses de antecipação enquanto outros defendem a classificação ao final da temporada pois a presença da equipe numa grande volta influencia contratos com ciclistas e patrocinadores. A UCI também quer barrar as mudanças nos nomes de equipes, assim as licenças poderão ser atreladas ao patrocínio.

Vejo nesse sistema uma inspiração advinda especialmente da ATP (Associação dos Tenistas Profissionais), onde os principais jogadores são compelidos mas não obrigados a participar dos torneios secundários para obter ranking e disputar os Grand Slams. A teoria é exatamente a mesma, a parte boa é dar maior visibilidade para equipes da segunda divisão enquanto a parte ruim é a perda de equipes de ponta em provas de menor prestígio o que deve ser contornado seja pela necessidade de pontuação, seja pela bolsa oferecida por alguns organizadores como no caso das provas no oriente médio.

Outras propostas que tem apoio de Lappartient

Político adepto da diplomacia, o presidente da UCI David Lappartient pisa em ovos cada vez que emite uma opinião. Elenco algumas das propostas estudadas:

  • Redução dos dias de prova do Giro e da Vuelta mas não do Tour de France. Nesse ponto foi duramente criticado em especial pela RCS, dona dos direitos do Giro.
  • Teto salarial, que seria um método para diminuir a supremacia das grandes equipes como a Sky, dividindo os favoritos em mais equipes, mas isso também serviria como um freio em apostas de desenvolvimento ou estrelas em transição como nessa temporada Matthieu Van der Poel e Wout Van Aert egressos do MTB e Ciclocross. Atualmente a diferença de orçamento varia entre 12 e 34 milhões de euros entre as menores e maiores equipes.
  • Alguns dirigentes como Jonatahn Vaughters defendem o teto salarial por prova, ou seja evita que uma equipe monte um time dos sonhos para disputa de uma determinada competição.

Histórico

A organização do ciclismo enquanto esporte profissional passou por muita turbulência neste século. Em 2004 a UCI tentou criar dois sistemas de classificação para dissociar provas de uma semana das provas clássicas, com muita disputa em especial com à A.S.O. (Amaury Sports Organization) proprietária dos direitos de realização do Tour de France. Em 2011 os sistemas de classificação foram unificados e o UCI World Ranking (Classificação Mundial UCI) foi introduzido e o World Tour (Circuito Mundial) criado com as definições para a estrutura do ciclismo.

Com algumas mudanças sendo introduzidas ao longo dos anos seguintes o circuito mundial em 2018 tem 37 eventos e 18 equipes na primeira divisão as “World Tour Teams”, além de 27 equipes da segunda divisão as equipes profissionais continentais “Pro Continental Teams”. A última mudança veio ao final de 2017 com a redução do número de ciclistas por equipe nas provas do circuito mundial. O alegado objetivo de redução de custos para salvar equipes não foi alcançado. Além das dificuldades envolvendo equipes do circuito mundial as equipes da segunda divisão foram as que mais sofreram, dependendo de convites para participar dos eventos mais importantes e com destaque de mídia algumas fecharam as portas.

Uma equipe faliu durante a temporada 2018, deixando de participar de eventos do circuito mundial, a Aqua Blue enquanto a Roompot e a Veranda’s se fundiram, reduzindo em duas as equipes para 2019. Ao final de 2017 a equipe de Jonatahn Vaughters quase fechou antes de conseguir um acordo de longo termo com a Education First que hoje dá nome ao time. A equipe de Giuseppe Saronni foi salva da falência pelos xeques árabes que agora patrocinam a UAE Emirates enquanto a equipe de Jim Ochowicz quase baixou as portas em 2018 até ser salva pelo bilionário que dará nome a CCC em 2019. Essa introdução mostra o quanto é sensível o ciclismo.

O grupo de controladores do ciclismo que planejam as mudanças é composto por representantes de diversos interesses:

  • UCI
  • ASO – Organizadora do Tour de France, Vuelta, Paris Nice, Criterium du Dauphiné e dona do jornal L’Équipe.
  • RCS – Organizadora do Giro d’Italia, Tirreno-Adriatico, Milão-Sanremo e dona do jornal La Gazzetta dello Sport.
  • Flanders Classics – Organizadora de clássicas belgas.
  • AIOCC – Associação Internacional de organizadores de competições de ciclocross
  • CPA – Associação dos ciclistas profissionais
  • Comissão dos atletas UCI

 

A luta entre direitos de transmissão e ausência de receitas para as equipes.

 

Nos esportes profissionais os direitos de transmissão normalmente são direta ou indiretamente repassados aos atletas e equipes. Isso não ocorre no ciclismo, com forte poder sobre a mídia, a ASO e a RCS defendem o modelo autocrático onde os direitos de transmissão sejam exclusivos dos organizadores. No ponto de vista dessas empresas uma divisão dos direitos iria sacrificar diversas provas menores. Outra alegação é o universo financeiro envolvido a transmissão do Tour de France rende a ASO 30 milhões de euros pela TV5 e 3 milhões pela Eurosport. Entretanto nas demais provas a situação é outra, a Critérium Du Dauphiné tem um resultado de receita ante despesa quase nulo. Os organizadores contam basicamente com as receitas:

  • Publicidade
  • Taxas para largada e chegada nas cidades cedes
  • Direitos de TV e Imagem
  • Outros entre verbas de federações, verbas públicas e de registro

As equipes então tem somente como receita o patrocínio, o tipo de investimento que é extremamente sensível a crises e mudança de comando em multinacionais. Do ponto de vista aqui do sofá as mudanças são boas, mas podem ter efeito nulo ao não tratar com mais dignidade a divisão da receita, ainda que pequena.

ESPN maturando o produto Ciclismo no Brasil

No Brasil temos a transmissão das grandes voltas e muitas das principais provas de ciclismo especialmente pelo horário ser favorável, pois a audiência é baixíssima. A ESPN Latina detém os direitos para o continente e repassa para a ESPN Brasil que coloca uma equipe para a grande maioria das provas, é um trabalho de desenvolvimento do produto e que leva anos, como levou no Rugby e na NFL. O grande diferencial é que o brasileiro ama pedalar, porém para entrar em destaque na grande mídia somente com presença de brasileiros e no ciclismo temos apenas representantes no MTB e no feminino.

Circuito Mundial Feminino

Um ponto deixado de fora é a expansão do ciclismo feminino. Se o ciclismo profissional masculino passa por dificuldades, o feminino agoniza com ciclistas tendo um rendimento anual médio abaixo do salário mínimo de países como França e Bélgica, principais expoentes do ciclismo. A maioria das transmissões de ciclismo feminino são efetuadas por federações locais e em alguns casos por organizadores. As equipes fecham e mudam de nome com grande volatilidade até tendo de alugar vagas para ciclistas amadoras terem presença em provas de destaque. A mudança nesse caso pode vir do apoio da UCI e talvez de exigir que as melhores equipes do circuito masculino mantenham também uma equipe feminina. Até o momento o circuito feminino tem 17 equipes previstas para 2019, há expectativa que a reforma englobe também o circuito feminino com a promoção de provas de maior porte e a ampliação dos dias em competição, atualmente ao redor de 50.

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