Bicicleta a morte lenta do planeta

Luiz Papillon

Hoje primeiro de abril é considerado o dia da mentira no Brasil. Levantamos hoje um dos boatos mais difundidos do mundo da bicicleta nos últimos anos. Será que é verdade ou fake? Confira:

Ciclovia em São Paulo | Foto Marcelo Mendes
Ciclovia em São Paulo | Foto Marcelo Mendes para o Pelote

Bicicleta a morte lenta do planeta

Você provavelmente já recebeu o texto “Bicicleta morte Lenta do Planeta pelo CEO Euro Exim Bank”, pois bem relembramos que o texto é falso e não faz o menor sentido (confira aqui no boatos.org). No entanto uma outra realidade pôde ser observada na pandemia. Cidades como Roma, Milão, Londres, Buenos Aires, Lima e especialmente Paris investiram pesado na mobilidade. Claro eles devem ser bobos e malandros somos nós brasileiros, que pagamos 50% de impostos em um automóvel só para reclamar diariamente do trânsito e do custo do combustível.

Então provavelmente a bicicleta realmente significa a morte lenta do planeta, pois de carro essa morte é em altíssima velocidade. Um estudo realizado em 2016 pela Federação de Ciclistas Europeus analisou dados extensos sobre a economia gerada pela agenda de mobilidade, chegando ao número de 513 bilhões de euros (3,29 trilhões de reais).

Esse estudo levou em consideração diversas variáveis como o efeito climático, o consumo de energia e recursos naturais bem como a saúde pública e economia de tempo e espaço.

Assim ao adotar uma agenda voltada ao transporte público e utilização em massa da bicicleta e hábitos como caminhar, a cidade ganha em muitos aspectos. Podemos utilizar como exemplo o custo da moradia. Cada vaga de estacionamento em prédios residenciais consome cerca de 25m2 de construção, um custo que é adicionado ao valor dos apartamentos. Em São Paulo a vaga de automóvel não é mais obrigatória, reduzindo assim o custo de moradia.

Investimento em mobilidade pode reduzir custos com mortes e sinistros no trânsito

Criar uma cultura de mobilidade ativa permite uma pacificação do trânsito, levando a uma economia substancial. Dados do IPEA indicam que cada morte no trânsito custa em média 1 milhão de reais (dados atualizados para 01/04/2022). Esses custos estão associados as pessoas (62%) com despesas hospitalares, atendimento, tratamento de lesões e perda de produção. Além disso há ainda os custos de remoção de veículos, danos aos veículos, perda de carga e danos a propriedade pública e privada.

Os sinistros com vitimas fatais representam 5% do total de acidentes mas 35% dos custos envolvidos.

Gráfico componentes do custo dos acidentes nas rodovias federais

Agenda de Mobilidade Brasileira ainda está nos anos 70

No Brasil, a agenda de mobilidade urbana está na pasta do ministério do Desenvolvimento Regional. E na última segunda-feira 20 de setembro, o ministro Rogério Marinho disse que o governo dispõe de  R$ 7 bilhões em recursos para investimento na mobilidade urbana. Mas o ciclista não tem o que comemorar, o grosso desse investimento embora fundamental vai para o transporte público.

“Temos mais de R$ 7 bilhões em investimentos, mas em função da pandemia houve dificuldade muito grande de manutenção dos serviços de transporte nas cidades de médio e grande porte, uma vez que diminuiu o fluxo de pessoas, afetando o equilíbrio econômico e financeiro das concessões espalhadas pelo país”, disse Marinho.

No Estado de São Paulo, os investimentos seguem pesados em estradas para serem concedidas a iniciativa privada. São túneis, viadutos e estradas como a Serra de Tamoios que custará no total R$ 1,5 bilhões. O maior túnel da América Latina foi inaugurado na última semana, e adivinhe o que é proibido por lá?

Maior Túnel da América Latina é proibido a ciclistas | Foto Governo de SP.
Maior Túnel da América Latina é proibido a ciclistas | Foto Governo de SP.

Tudo isso não é novidade alguma, o modelo que angaria mais votos no Brasil segue utilizando a abertura e ampliação de estradas como fomento de desenvolvimento. O país do futuro ainda vive no passado. O Governo do Estado de São Paulo ignora uma Lei em vigor a mais de 20 anos que exige plano cicloviário para toda nova estrutura.

Governo instituiu Fórum Consultivo de Mobilidade urbana, mas deixou pedestres e ciclistas de fora

Em decreto federal, o governo criou um Fórum Consultivo de Mobilidade Urbana. Como integrantes do fórum estão representantes:

a) Ministério da Economia;

b) Ministério do Desenvolvimento Regional;

c) Frente Nacional de Prefeitos;

d) Confederação Nacional de Municípios;

e) Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Públicos de Mobilidade Urbana;

f) Conselho Nacional de Secretários de Transportes;

g) Associação Nacional de Transportes Públicos;

h) Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos;

i) Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos;

j) Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Terrestres;

k) Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus; e

l) Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor.

Ficando de fora associações de pedestres, ciclistas e do setor da indústria de bicicletas.

Trânsito brasileiro mata igual a guerra na Ucrânia

Dados do Ministério da Infraestrutura mostram que brasileiros sofrem cerca de 72 sinistros de trânsito por hora. Durante o ano de 2021 11.647 pessoas morreram em 632.764 sinistros registrados. Isso representa um número mensal de 970 pessoas, semelhante ao de civis mortos no primeiro mês da guerra na Ucrânia.

Álcool e excesso de velocidade uma combinação fatal

Em estudo realizado pelo Ministério dos Transportes, mais da metade dos acidentes é causada pela imprudência dos motoristas sendo 1/3 de todos acidentes causados por falta de respeito as leis de trânsito.

Entre os principais desrespeitos as leis de trânsito está a combinação fatal entre álcool, velocidade e direção. Uma pesquisa de pós-doutorado realizada na Faculdade de Medicina da USP indicou que 42,9% das vítimas de acidentes fatais de trânsito na cidade de São Paulo haviam ingerido álcool em uma dosagem média de 1.1g/l de sangue (cerca de cinco doses de bebida).

Desde 2019 a polícia rodoviária federal, deixou de fiscalizar o excesso de velocidade nas estradas sob domínio federal. O “combate” a fiscalização do excesso de velocidade foi uma das plataformas eleitorais do presidente Jair Bolsonaro, eleito em 2018.

 

 

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