O pior ciclo olímpico para o ciclismo brasileiro!

Na última semana repercutiu um artigo do jornalista Demétrio Vecchiolli sobre o ciclismo de estrada no Brasil. O texto é bastante preciso e traz uma ótica sobre os problemas que fizeram o país sede dos últimos jogos olímpicos a não ter nenhum ciclista de estrada classificado para Tóquio 2020. Além do excelente Raio-X feito no artigo acima, aumento o foco em alguns pontos.

Sem base a elite do ciclismo brasileiro definha

O primeiro erro começa no próprio título deste texto. O Brasil acostumou a pensar de quatro em quatro anos. Da política ao esporte é um pulo, e assim a cada quatro anos, o tacho é raspado e são pincelados alguns atletas prontos para receberem patrocínio ou apoio. Apoio esse quase sempre estatal. Ocorre que ao contrário das escolinhas de futebol, as peneiras disputadas afinco pela criançada são inexistentes na maioria dos esportes olímpicos.

Falando especificamente do ciclismo, não temos basicamente uma categoria de base, enquanto na Europa a criança começa a treinar e ter contato com o ciclismo competitivo antes dos 10 anos de idade.

Aqui no Brasil isso ocorre já dentro da categoria júnior. Para se ter ideia no estado de São Paulo a categoria júnior tem menos de 50 federados (já somados meninos e meninas). Esses federados são em maioria oriundos de três programas, a equipe de ciclismo SF Saúde, Klabin Ribeirão Preto, ABEC Rio Claro e Instituto Athlon de São José dos Campos. São Paulo, o maior estado da nação, com a maior rede cicloviária do país e nove milhões de estudantes só tem CINQUENTA ciclistas juniores federados. A categoria Sub23 não é diferente, são 60 federados ai já somados meninos, meninas. É pouco? É menos, é irrelevante. Com isso temos outros 216 atletas na elite, isso contando com muitos veteranos que esticam a permanência na elite dada a escassez de renovação.

Provas amadoras são exemplos de sucesso

Se por um lado temos poucos federados, na outra mão as provas amadoras crescem de sucesso a cada dia. O Letape é o grande exemplo disso, e existem diversos exemplos de provas amadoras de sucesso. Contudo não ocorre a migração do ciclista amador para a elite, a exceção de alguns raros casos. O público dos Granfondos, Letape e provas similares é formado geralmente por pessoas acima dos 25 anos de idade. Ai entra uma outra observação de caso.

Largada do Letape Brasil 2019 – Foto Fabio Monjardim

As provas europeias são muito mais que apenas uma prova. No começo deste ano aconteceu a 54ª Amstel Gold Race e falei sobre o fenômeno econômico que cerca a prova. São cerca de 15.000 ciclistas do mundo todo participando de provas de Granfondo que antecedem a prova de elite. Entre as provas que antecedem a elite masculina e feminina, estão as provas Sub23, júnior e infantis. Esses participantes todos além de movimentar a economia local, tornam-se espectadores da prova de elite, sendo transmitida mundialmente.

Essa fusão de um evento comercial com o evento esportivo precisa ser encarada por federações e organizadores. Só assim os eventos serão rentáveis e poderão investir em atrativos para o público. Esse é o primeiro passo, antes de pensar em equipes continentais. É preciso também utilizar instalações existentes como o Velódromo Olímpico do Rio de Janeiro, lutar pela renovação do Velódromo Olímpico da USP entre outras estruturas.

O modelo de provas do ciclismo brasileiro precisa ser revisto

As provas de critério são divertidas, interessantes porém apenas quando ocorrem de forma local. Provas de critério utilizadas de modo massivo como as federações praticam, acabam por minar o interesse na disputa. Tomo por exemplo uma prova realizada na cidade de Santos, uma cidade com atrativos turísticos excelentes, rede hoteleira, porém cuja prova não levou um grande número de interessados. A inscrição era uma bagatela, R$10,00 e ainda assim houveram poucos inscritos. Qual motivo de tamanho desinteresse? Bom, podemos recorrer a calculadora ou uma planilha para checar isso. O evento isoladamente parece muito interessante, mas para quem vai disputar a prova (lembre, temos pouco mais de 200 atletas elite no estado) implica numa somatória:

  • Deslocamento (Transporte, pedágio, combustível, passagens…)
  • Alimentação
  • Hospedagem
  • Inscrição para a prova
  • Investimento no equipamento (Bicicleta, Rodas, Vestuário, Suplementos, Treinamento…)
Programa Ciclofaixa de Laser, exemplo de incentivo | Divulgação

Todo esse aparato tem um custo muito, mas muito maior que a singela inscrição. Agora qual o benefício? Bom, o esportista vai fazer um deslocamento de 200, 300km para disputar uma prova em um circuito de 1,5km que se ele “piscar” toma uma volta e é eliminado. O esportista simplesmente opta por fazer outra atividade, o máster, o sênior… não vão! As provas de critério são ótimas para bairros, para servir de peneira mas não para elite, não como única opção.

Esse trem já passou, é preciso se inspirar no sucesso

Sempre que vou em eventos ligados ao ciclismo e converso com dirigentes, ex-atletas, jornalistas entre outros ouço histórias e memórias recorrente.”Ah como era bom o Tour de São Paulo parando a rodovia dos Bandeirantes” outro destaca a “Subida da Serra pela Imigrantes”. Apesar do saudosismo é preciso entender a realidade das metrópoles brasileiras. Não dá para fazer grandes interrupções de trânsito sem movimentar um grande aparato de pessoal e material. E isso tem custo e não é pouco.

Você pode estar perguntando: Poxa Papito! E a mobilidade, precisamos exaltar esses marcos!

Pois saiba que a Ronde van Vlaanderen (ou Volta a Flandres) oficialmente parte de Antuérpia mas não entra na cidade de 500.000 habitantes. As provas de ciclismo com devidas exceções não são disputadas dentro das grandes cidades Belgas, Francesas ou Italianas. Tampouco utilizam autoestradas, usualmente são interditadas estradas secundárias ou locais para realização de provas. Tudo isso leva a um impacto muito menor nas cidades e obviamente um custo muito menor para realização dos eventos. Acho que o leitor aqui já nota o ponto que procuro chegar, mas vou ser explícito:

– Não se para uma cidade com 1, 2, 10 milhões de habitantes numa sexta feira

Se Holanda, Bélgica, França entre outros países já compreenderam isso e quando o fazem é sob um controle enorme para que tudo saia como o planejado. Não seremos nós brasileiros que vamos dar aula de como produzir provas de ciclismo dentro de metrópoles.

Renovar é preciso, mas sem improvisar

Já diz o ditado que em terra de cego quem tem um olho é rei. Porém um rei fraco faz fraca a forte gente, já escreveu Camões. É preciso dotar clubes, equipes, federações e como resultado a confederação brasileira de ciclismo de gestores. Um fator recorrente no esporte brasileiro é o ex-atleta dirigente. Quase que um caminho natural, porém com emboscadas. Obviamente aquele que sentiu na pele as dificuldades tem uma visão a compartilhar, porém não pode ficar só na experiência, é preciso teoria e muita.

Em julho comentei sobre a aposentadoria de Laurens ten Dam. Antes de se aposentar, o holandês Ten Dam formou-se em Economia, tornou-se editor chefe de uma revista de ciclismo, montou uma empresa que organiza provas de MTB e concluiu um mestrado na área de administração e marketing esportivo. Agora com a carreira encerrada ele tem certeza que irá continuar no ciclismo e que um dia pretende fazer parte da confederação holandesa.

Há claramente um preparo extenso para o futuro dirigente, enquanto isso no Brasil nossos ex-profissionais basicamente dividem-se entre dar treinamento e ter um pequeno comércio ligado a bicicleta. Há uma distância enorme para que nossos ex-ciclistas tornem-se especialistas em gestão, marketing e administração esportiva que é o que o esporte mais precisa nesse momento.

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