A caramanhola da discórdia!

Luiz Papillon

Ontem durante a Ronde van Vlaanderen, o ciclista suíço Michael Schar da Ag2r Citroen foi desclassificado por “jogar lixo” na via. Sendo assim o primeiro ciclista punido pela regra da UCI que prevê multa e até desclassificação. Na mesma prova em sua edição feminina, a vencedora Annemiek van Vleuten também jogou a caramanhola, porém sem punição.

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Para entender a punição é preciso entender tanto a regra como sua aplicação. Schar vinha atrás do pelote e claramente lançou a caramanhola para um grupo de fãs. Pouco depois veio a determinação dos comissários da UCI: Schar estava desclassificado da prova com base nas novas regras UCI. Na gravação fica clara a intenção do ciclista de jogar a garrafa para o grupo de fãs e não um descarte perigoso ou algo do gênero.

https://twitter.com/i/status/1378676125740711936

Já Annemiek, jogou a garrafa dentro da zona de descarte, porém na direção de uma pessoa que utilizava uma jaqueta da mesma cor de sua equipe, a Movistar. Não se sabe o que ocorreu com a garrafa de Annemiek, mas ela não foi punida pois o descarte ocorreu na zona correta.

O que diz a regra de descarte da UCI?

O artigo das regas a qual se refere o regulamento é descrito no código de provas de estrada: “Falha em respeitar instruções, comportamento impróprio, perigoso ou violento, dano ao meio ambiente ou a imagem do esporte.” Na sequência o artigo especifica que jogar objetos ou lixo sem cuidado ou de modo perigoso na estrada ou nos espectadores, jogar lixo fora da zona de descarte.

Detalhe da Regra UCI | Fonte: UCI

O filosofo alemão Karl Marx celebrou a boa intenção em uma frase: O caminho do Inferno está ladeado de boas intenções. É claro que o objetivo da regra é punir o ciclista que descarte resto de lanche, embalagem ou garrafa ao longo do trajeto. Resta então a esperança que os comissários sejam preparados para permitir que ciclistas sigam entregando suas caramanholas vazias para o público, pois nesse momento elas deixam de ser lixo e tornam-se relíquias para crianças de todas idades.

Entre as várias ponderações, é claro que há uma transformação no uso do objeto. Enquanto a garrafa está cheia, ela é um importante e necessário invólucro para água ou isotônicos. Quando a garrafa está vazia, ela pode se transformar em lixo, se for descartada de forma errada ou pode virar um objeto colecionável, de valor, um souvenir. É a transformação social do objeto por meio da teoria subjetiva do valor, definida há mais de um século pelo mesmo filosofo alemão.

Michael Schar escreveu carta aberta a UCI: O porquê crianças começam a pedalar

Lembro como se fosse ontem. Meus pais levaram minha irmã e eu para o Tour de France de 1997, no Jura. Dirigimos até o percurso e esperamos horas no meio da multidão. Finalmente a caravana de publicidade chegou e todos pegamos algumas guloseimas.
Mais tarde, os primeiros carros da polícia chegaram e o helicóptero estava pairando sobre nós. Exatamente essa atmosfera eletrizante do pelotão se aproximando de nós foi para mim uma mudança de vida. Fiquei infinitamente impressionado com a velocidade e a facilidade com que esses ciclistas podiam andar de bicicleta. Eu não queria mais nada na minha vida do que me tornar um ciclista profissional. A partir desse momento fui movido por um sonho.

Além dessa impressão, recebi uma caramanhola de um profissional. Este pequeno pedaço de plástico completou meu vício em ciclismo. Lá em casa aquela caramanhola me lembrava todos os dias qual era o meu sonho. Eu andava com minha caramanhola amarela do Team Polti todos os dias com todo o orgulho. Todos os dias.
Agora sou um desses profissionais que passam por todos os felizes espectadores. Nos momentos de calma da corrida, sempre guardo minha garrafa vazia até ver alguns garotos à beira da estrada. Então eu as jogo suavemente bem onde eles podem pegá-lo com segurança.
Há dois anos, dei uma caramanhola a uma garota à beira da estrada. Seus pais me disseram que a menina não ficou feliz com esta garrafa apenas por um dia. Não, ela ainda fala sobre esta garrafinha. E talvez um dia ela se torne ciclista também. Esses são os momentos que amo nosso esporte. Ninguém pode tirar isso de nós. Somos o esporte mais acessível que distribui mamadeiras pelo caminho.
Simples assim. Simples é andar de bicicleta

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