Café com Pelote: Junimba, um brasileiro acompanhando o ciclismo profissional na Europa!

Luiz Papillon

De conversas no Twitter para uma irreverente cobertura das provas mais importantes do ciclismo mundial. Falei com Junior Simões o Junimba e juntos traçamos um pouco da iniciativa que partiu de um recém separado que planejava morar em Berlim. Cobertura do Giro, Tour de France e Mundial de Ciclismo com direito a filmar o novo campeão mundial juntinho de sua família.

A ideia aqui era trazer uma entrevista curta, mas a história que envolve nosso amigo é muito boa e assim nosso Café com Pelote acabou ficando um papo longo, confira:

Primeiro falamos da relação com a bicicleta, um passeio e a vontade de pedalar pela cidade.

Eu sempre gostei de pedalar, mas com 18 anos sofri um grave acidente! Sem capacete! Você sabe, né?! 18 anos. Quase morri! Não lembro de nada. Apesar do trauma na cabeça, felizmente não fiquei com traumas da bike, mas já não posso dizer o mesmo em relação aos meus pais. Mas depois disso, o City Bike passou a ser meu esporte. Gostava tanto do ‘bike way of life’ que um dia comprei uma Road Bike usada. O meu objetivo era pedalar até a Vista Chinesa e a partir daí, tudo mudou! Ao descobrir a natureza estonteante do Parque Nacional da Floresta da Tijuca, pedalar passou a ser praticamente um ato sagrado! Uma espécie de redenção. Não só pra mim, mas para outras centenas de pessoas que descobrem todo dia, os prazeres e as dores do ciclismo, mas descobrem principalmente uma vida melhor.

Conserta-se Bicicletas | Junior Simões

Só é uma pena não podermos compartilhar deste mesmo pensamento por parte do Estado. Ao não perceber a cultura do esporte como um bem estar social de sua sociedade, ao ser responsável por planejar e promover infra estrutura adequada para que isso se desenvolva nesse sentido. O caso recente dos acesso bloqueados à Vista Chinesa e Paineiras, no Rio e o fim das eco-faixas em São Paulo, como também a subutilização do Velódromo, são exemplos concretos dessa antipolítica.

Durante esse período de descoberta do esporte que criei o projeto #riodejunimba (https://www.instagram.com/explore/tags/riodejunimba/) reunindo fotos dos novos ângulos que descobri pedalando e escalando as montanhas da Cidade Maravilhosa e onde pude perceber que o ciclismo foi como um professor: me ensinando e me fazendo sentir emoções que eu não vou esquecer nunca mais. Quem sabe um dia essas fotos e esses ensinamentos não viram um livro…

Junior, de onde surgiu a ideia de cobrir eventos de ciclismo? Qual foi a primeira prova que você viu ao vivo?

Então, começar a curtir as corridas foi um movimento natural. Participei do ‘mais importante grupo de Zap sobre ciclismo de todos os tempos’: os famosos #Cornetas, que reunia uns 50 caras do Brasil inteiro no Zap, pra falar de ciclismo! Política, Futebol e Sexo eram terminantemente proibidos! Ari Aguiar e Celso Anderson eram os locutores desta paixão, mas sempre chegavam também links piratas para você não perder as mais escondidas provas do calendário. Quando tinha Paris-Roubaix era uma loucura de mensagens! Depois tudo passou pro Twitter e os mesmos malucos que teimavam em gostar daquele esporte tão difícil de ver, ler e até de ouvir falar, passaram a estar cada vez mais presentes e servem sempre de inspiração e fonte de aprendizado como o jornalista Leandro Bittar, o português Rui Quinta, o País do Ciclismo, vocês do Pelote, o Digital Cycling, o Corneta Ciclismo, a Rádio Corsa…todos loucos! Com tanto futebol por aí, foram se interessar por ciclismo…

Em Março 2019 eu vejo esse tweet [fui atrás pra resgata-lo] do Leandro Bittar que dizia: ‘Sempre bate uma nostalgia quando pinga esse tipo de email na caixa postal…’ ao receber o email para solicitação de cadastramento de mídia pro Giro daquele ano.
https://twitter.com/ltbittar/status/1111619486141071360?s=20

A minha resposta pro tweet não poderia ser mais fanfarrona: ‘Não dá pra mandar meu nome não, Bittar?! Vou estar por lá e posso cobrir in loco para o Pool de mídia especializada formada por @DoCiclismo @CyclingDigital @Pelote_ e @CornetaCiclismo com comentários rabugentos do @VHMalz. Vai bombar! Posso passar meus dados já? ;-)’ https://twitter.com/junimba/status/1111627851340660736?s=20 :

Junimba | Selfie

Estava recém separado, com planos pra me mudar para Berlim em Abril e um dos objetivos da mudança era ficar mais perto do Ciclismo. O resto é história! Em Maio estava na Itália credenciado como repórter para cobertura do Giro! Sem um veículo formal de mídia além da minha conta do Twitter, meu canal no Youtube e os amigos #Cornetas para dar RT. Foi tudo muito rápido e inacreditável!!!

Hoje o Bittar é um grande amigo, que infelizmente ainda não o conheço pessoalmente, mas que ligo para buscar conselhos sempre que bate aquela dúvida e por quem serei eternamente grato. Se você ainda não ouviu o podcast Classicômono (https://anchor.fm/classicomano) sugiro ouvir e assinar agora! Pra minha alegria, pude criar a logomarca do podcast e também da jersey do País do Ciclismo (@doCiclismo), como uma forma de agradecimento aos dois que permitiram que tudo isso acontecesse.

No Giro, produzi a série #JunimbanoGiro > https://www.youtube.com/playlist?list=PLBOvFd17AoZROboObfH6JWUnBxfN2kN9R, onde consegui fazer entrevistas com o Alberto Contador, Vicenzo Nibali, Mikel Landa e jornalistas como Gregor Brown e Héctor Urrego, o ‘Professor do Ciclismo’ Colombiano. Todos ali na minha frente! Só não foi mais inacreditável do que fazer toda essa cobertura pegando carona de uma cidade pra outra! Conto um pouco dessa história para essa entrevista pro pessoal da InCycle > https://youtu.be/luaIKPhl_RE

De alguma forma esse projeto é filho de um outro, que realizei em 2018 chamado: ‘Viajando com o Dindo’ >

(https://www.youtube.com/playlist?list=PLBOvFd17AoZSoQv5KP-362-xA2ejDSkV8), onde documentei histórias de uma viagem que fiz pela Europa para contar as aventuras pros meus afilhados Pepeu e Martim, de 10 e 4 anos respectivamente, onde a bike era sempre um fio condutor dos episódios e que me permitiram descobrir personagens e cantos escondidos das cidades que visitei. É desse registro por exemplo, a minha aventura pelo Tour de France 2018 como espectador, onde vi de perto a vitória do Nairo Quintana na Etapa Rainha de Saint Lari Solan e de onde guardo a paixão pelo ciclismo dividida com meu amigo do peito, o Colombiano Jorge Bustacara que virou um episódio histórico, pelo menos nas nossas vidas

E enfim respondendo a sua pergunta, não sei se surgiu a ideia de cobrir os eventos de ciclismo ou se na verdade apareceu uma oportunidade para juntar o desejo e uma paixão pra me jogar de cabeça em algo que me dá muito prazer de fazer. Na ocasião, enfrentava um momento de mudança de vida e consegui ter a coragem e o tempo disponível para me dedicar a isso e uma coisa acaba puxando a outra. Então eu só tenho a agradecer.

Seu vídeo com o Marco Haller viralizou e teve milhares de visualizações, o que mudou depois disso?

Cheguei no Giro 2019! No início da segunda semana (Etapa 10). Na Etapa 13, em Pinerolo, estava filmando a dispersão dos atletas e aquela cena aconteceu repentinamente na minha frente! O vídeo de apenas 23s explodiu nas redes sociais! Toda a cena que fiz está ali! Postei no Twitter e percebi que as visualizações aumentavam rápidamente. O fato engraçado é que naquela noite, a cidade em função da corrida, estava lotada! Não tinha mais vagas em hotel algum! Percorri a internet e o Centro atrás de algum lugar pra dormir e nada! Cheguei a pensar em dormir na Estação de Trem, mas voltei pro Centro de Mídia, que por sorte estava instalado numa Escola e acabei achando uma sala de aula vazia onde estiquei meu saco de dormir no chão, trazido para emergências como aquela! Por isso te digo: sempre leve o seu saco de dormir! Ao acordar, o vídeo tinha viralizado e claro, passou a ser o meu cartão de visitas no Giro e também no ‘Circo’ do ciclismo.

Marco Haller se tornou um ‘Buddy’ no Pelotão. Um cara muito simpático e que também se mostrou uma grande pessoa. Guardo um eterno carinho e um orgulho da vida ter nos apresentado dessa forma. Meu desafio agora é conseguir conversar com ele em Alemão. Tô treinando! 🙂

O que mudou? Passei a acreditar num novo sonho! De conhecer o mundo e inspirar outras pessoas com os exemplos do esporte. Tenho o prazer de contribuir para a exposição do ciclismo, pois acredito que ele pode inspirar também muita gente. Pedalar me torna um cara mais feliz. E agora o ciclismo me proporciona soltar um pouquinho desse meu lado documentarista. E quero continuar perto destes eventos, retribuindo um pouquinho o tanto que o ciclismo me ensinou. Esta é a minha maior motivação. Quanto mais gente descobrir os prazeres do pedal e do esporte, melhor você será, melhor você vai viver! Melhor será a nossa sociedade e também nossas cidades.

Diferentemente dos jornalistas de profissão você apresenta uma visão do torcedor de uma prova, além disso vejo novos conteúdos no seu canal. O que podemos esperar do canal do Junimba?

Você me falou isso uma vez e eu achei curioso. Não ser jornalista talvez tenha me ajudado um pouquinho nisso. Quando cheguei no Giro d’Italia 2019, não tinha uma ideia clara do que iria fazer. Não sabia como funcionava toda aquela engrenagem pros jornalistas, mas a minha experiência com produção de eventos talvez tenha contribuído.

Sou muito observador e curioso, gosto da história de pessoas e de documentar. Desde adolescente brinco com a câmera, então filmar e fotografar são parte de mim e tenho me descoberto também na edição. Como um fã do ciclismo, foi um pouco surreal me deparar com esse mundo e também os caras que via na TV ali na minha frente, mas ao mesmo tempo, quem são essas ‘estrelas que ninguém conhece’?! ‘Quem assiste esse esporte?!’, ‘Ciclismo é muito chato!’ De alguma forma, quero contribuir para quebrar isso! Faço de coração e deixo acontecer.

Você lançou um Crowndfunding neste começo de 2020, quais seriam seus objetivos no ciclismo para este ano, claro considerando que consiga apoio?

Pois é, essa é uma das iniciativas que estou tentando para viabilizar a cobertura desta nova temporada. Buscando formas de seguir com este projeto que batizei de Cycling Circus. Criei uma série de pôsteres a partir de fotos que tirei na temporada passada e que serão enviados pra quem apoiar o projeto. Seria ótimo contar com a participação de empresas e demais interessados não só para a minha cobertura, mas para o ciclismo em si. Vamos ver no que vai dar! O link para a contribuição é: https://abacashi.com/p/junimba

Com certeza vou produzir mais conteúdos para o canal no Youtube (www.youtube.com/user/JunimbaCinema). Dentre os conteúdos que quero aprofundar é mostrar as diferenças da cultura da bike por aqui e que impactam na vida das cidades e no comportamento das pessoas.

Para as corridas, nessa primeira parte da temporada, pretendo ir ao Six Day Berlin 2020, que é a seletiva alemã de Ciclismo de Pista no Velódromo que acontece entre os dias 23-28 de Janeiro e que mistura o evento esportivo com entretenimento para os fãs e onde quero observar a estrutura e conhecer um pouco da preparação dos ciclistas alemãs.

No Ciclismo de Estrada, planejo acompanhar de perto a Strade Bianchi (07/03), o Tour de Flandres (05/04) e a 100a edição da Paris-Roubaix (12/04), mas soube que o Sagan estreia na Omloop Het Nieuwsblad (29/02) e essa corrida pode entrar na lista também. Fã é fã! 🙂

Claro que gostaria de fazer de novo a cobertura de uma Grande Volta, como o Giro, o Tour ou a Vuelta, mas para isso é preciso realmente criar uma forma mais sustentável para que isso aconteça. Até agora, todo o investimento que tenho feito vêm das minhas próprias economias e de trabalhos que realizo como designer. Paralelamente sigo apresentando o meu trabalho por aqui em busca de novas oportunidades.

Quais vantagens marcas e empresas que investem na exposição com atividades saudáveis podem ter?

Exige-se hoje um mundo onde as marcas sejam comprometidas para além dos seus lucros. Exige-se que elas também se envolvam e contribuam para o desenvolvimento das pessoas e da comunidade a sua volta. Na preservação do bem estar e do meio ambiente. Seja na promoção de atividades esportivas pro seu quadro de funcionários ou na busca por uso de fontes renováveis de energia. Então ao buscar um patrocínio, seja que tamanho ele tiver, deve-se buscar o bem estar do indivíduo, o bem estar da sua comunidade. E o esporte é sem dúvida uma das maiores alavancas para desenvolver e trazer uma melhor qualidade de vida para todos que descobrem o pequeno prazer de suar e sofrer para cruzar uma linha de chegada. E acredito que alguns exemplos, só o esporte é capaz de ensinar.

Claro que eu sempre sugiro o ciclismo, mas é uma busca de cada um. Marcas que conseguem enxergar além do ganho momentâneo e usam o esporte como uma plataforma para tornarem suas marcas mais admiradas e queridas vão sempre sair na frente ao contribuir e atrelar suas marcas a realização de sonhos que servirão de inspiração para tantos outros. Mas é também um compromisso e desafio de cada um de nós por uma vida e mundo melhores, com pessoas mais saudáveis e gostosas da vida.

Se sua marca ainda não patrocina ou promove um esporte na sua cidade, na sua região ou no seu Estado? Pode ser uma escolinha ou uma atividade esportiva profissional! Pode ser inclusive aquele garoto apaixonado por bicicletas! Patrocine! Mas faça de verdade! Todos nós só temos a ganhar! Você só tem a ganhar!

Bom pedal! Segura!
Beijo do Junimba!

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