A Caloi no GP Brasil de F1, Não esqueça minha Caloi

Ontem 20 de maio de 2019 faleceu aos 70 anos o ex-piloto de Formula 1 Niki Lauda. Em meio as conversas relembrando o piloto, surgiu o fato das corridas de bicicleta como preliminar do GP Brasil de Formula 1. Então convido o leitor a embarcar nesse De Lorean. Uma passada pela F1, lembro a campanha Não esqueça a minha Caloi e finalmente que esqueceram a Caloi.

Contexto Histórico – A Bicicleta na crise do petróleo

Vale ressaltar o Brasil que passou isento pela segunda guerra começava a enfrentar as mazelas da má gestão dos militares da economia. Ainda assim o país gozava de uma renda proporcionalmente maior que países como Espanha e Portugal. Entretanto a ditadura proibia a importação de bens de consumo e essa proteção de mercado aliada a renda alta permitia maiores investimentos por parte das empresas. A Caloi como maior empresa nacional de bicicletas teve nos anos 70 seus anos de ouro.

Caloi 10 – Livre por Natureza no GP Brasil de F1

A Caloi iniciou a produção da Caloi 10 em 1972, mesmo ano do primeiro GP Brasil de Formula 1 que foi realizado em Interlagos. Em 1976 a Caloi entrou como patrocinadora, além de cartazes com a campanha “Caloi 10 Livre por Natureza”, promoveu uma volta com os pilotos de Formula 1, claro com a Caloi 10.

Jody Scheckter, Patrick Depailler, James Hunt, Niki Lauda, Ingo Hoffman, Emerson Fittipaldi e Larry Perkins | Propaganda de Divulgação da Caloi 10

O evento foi um sucesso e reeditado no ano de 1977. Durante as festividades os pilotos davam uma volta com a Caloi 10 saudando o público. Posteriormente a Caloi esteve como patrocinadora da equipe brasileira de Formula 1 a Fittipaldi, também conhecida por Copersucar (nome de um dos patrocinadores).

Em 1982 com o Brasil em crise financeira, a Copersucar não conseguiu patrocinar a equipe Fittipaldi. Assim o governo militar optou por pressionar empresas brasileiras a manterem o sonho brasileiro. Assim a Caloi, a Petrobras, o Café Brasil e especialmente a Brasilvinest patrocinaram a equipe. Assim na alvorada da equipe, lá estava a Caloi em destaque nos últimos grandes prêmios da Fittipaldi.

Fittipaldi F8 – 1982

No retorno da Formula 1 a São Paulo, em 1990 novamente estava a Caloi lá, patrocinando uma prova disputada com eliminatória apenas para ciclistas da elite. A disputa foi narrada por Galvão Bueno e contava com eliminação de três ciclistas por volta quase como na prova de corrida por eliminação no velódromo.

Não esqueça a minha Caloi e o Passeio Ciclístico de Primavera

Propaganda Não Esqueça a Minha Caloi

Talvez a campanha de marketing de maior sucesso da história da bicicleta no Brasil. Foi criada pelo publicitário José Estevão Cocco em 1978. Com pequenas edições foi veiculada por 17 anos. O sucesso levou Cocco a ser diretor de marketing da Federação Paulista de Ciclismo e a comandar o lançamento de modelos como a Caloi Cross, Caloi Ceci  e Barra Forte. Cocco também foi um dos idealizadores do Passeio Ciclístico de Primavera, que chegou a levar 100.000 pessoas ao parque do Ibirapuera em São Paulo com bicicletas.

Divulgação Passeio Ciclístico de Primavera – 1977

A Caloi nesse período praticamente virou sinônimo de bicicleta. Veio a abertura de mercado, o plano Real e a Caloi correu para tentar emplacar em outros mercados. Comentamos um pouco da aventura internacional da Caloi clicando aqui.  Mas a realidade mundial já era outra, outros grandes fabricantes iniciavam a produção nos países asiáticos e com a estabilidade monetária o custo Brasil aplacou a empresa.  Logo após a crise na Rússia em 1998 o Brasil viu a fuga de dinheiro do mercado e a desvalorização do Real em 40%. Alguns meses depois o controle acionário da Caloi deixava as mãos de Bruno Caloi e passava para Eduardo Musa.

Esqueceram a Caloi

Quase de imediato as mudanças vieram, o velho, o histórico passaram a serem relegados ao segundo plano. Assim o apoio da marca para o ciclismo passou a quase zero. Nova relação com os consumidores, novos “produtos inéditos” que ignoraram a própria história inovadora da companhia. Em 2012 a Caloi trocou novamente de mãos. A canadense Dorel entrou na sociedade em 2012 e a consolidou à aquisição em 2017.

Agora a Caloi fica definitivamente uma marca local, uma aba na gigante canadense. Tanto que o maior expoente do MTB nacional, Henrique Avancini utiliza a marca Cannondale, também de propriedade da Dorel.

A Dorel e o início do resgate da identidade Caloi

Nos últimos dois anos a Dorel enfrentou problemas de liquidez. A empresa consolidou a venda das marcas Sugoi e Sombrio para a Lois Garneau. Enquanto isso, Caloi e Cannondale asseguraram lucro para a divisão esportiva. Em seus dois últimos relatórios para investidores a marca assegura o crescimento de dois dígitos (acima de 10%) nas vendas da empresa, motivada especialmente pelo programa de bicicleta compartilhada (a Yellow utiliza bicicletas Caloi). Seja em lojas, stands ou feiras a Caloi era relegada ao segundo ou terceiro plano, sempre abaixo das americanas Cannondale e GT, ambas do mesmo grupo. Em acordo com relatos da própria Dorel, a Caloi detém atualmente 40% do mercado de bicicletas no Brasil.

A Caloi tornou-se um sólido ativo devido ao mercado brasileiro, mas vinha constantemente ignorando seu histórico, seu passado e sem cultivar o cliente do futuro. Quase que pedindo para que o cliente esqueça a Caloi e mire somente na Cannondale ou GT, numa quase autofagia.

Em 2017 a Caloi lançou uma versão 120 anos da Caloi 10, lançada na ShimanoFest com componentes Campagnolo em mais um show de como não se fazer marketing. Novamente em 2018, novo lote de 120 bicicletas, anunciado somente após a venda total do estoque em mais uma brilhante ação de marketing. Você pode conferir o artigo abaixo.

http://www.pelote.com.br/caloi-10-edicao-120-anos/

Crescimento e representatividade da Caloi resgatada

Mas nem tudo é esquecimento. No último ano a Dorel contratou a agência Tribal WorldWide e J. Cocco. E assim relançaram o “Não esqueça minha Caloi”. Se a Caloi voltará a olhar para o público que cultivou durante mais de um século, é papo para outro texto.

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