Dissecando Froome

O mundo do ciclismo não fala de outra coisa, a vitória esmagadora a moda Merckx de Chris Froome na etapa rainha do Giro esta dando o que falar. A distância do ataque, a precisão na execução e o resultado trazem a tona um velho fantasma do ciclismo, o doping. E não é por falta de indícios, Froome esta sendo investigado desde setembro por uma amostra adversa. Já escrevi falando sobre o porquê Froome pode ser inocentado ou condenado. Também lembramos aqui no pelote que o ciclismo é o esporte mais controlado de todos.

Logo após a vitória de Froome, George Bennett da Lotto Jumbo ao ser informado da performance do adversário soltou:

“Você quer dizer que Froome foi solo por 80 quilômetros? Mas que merda! Froome mandou um Landis”

A referência foi clara, Floyd Landis em 2006 fez um ataque solo sobre três montanhas nos alpes franceses vencendo por seis minutos, um feito épico que se apagou da história apenas quatro dias após. A equipe Phonak (atual BMC) anunciou que o americano testou nível fora do normal para epitestosterona, um andrógeno da testosterona. Assim o americano foi desclassificado e o título do Tour ficou com Oscar Pereiro. Aliás Oscar Pereiro testou duas vezes durante o mesmo Tour de 2006 para salbutamol. Após investigação a agência francesa anti-doping entendeu que Pereiro forneceu informações suficientes e que o uso da substância foi terapêutico.

Bennett depois contemporizou após perceber que seu comentário foi tirado do contexto:

“Eu não estou implicando nada, eu apenas disse que ele fez um grande ataque. Não tem nada haver com drogas ou algo do gênero.”

Dissecando o ataque de Froome

Assim algumas duvidas que vem a cabeça em face de uma vitória como a de Froome na etapa 19 do Giro 2018. A primeira advém da naturalidade do desempenho, sobre essa parte a equipe Sky que costuma esconder o jogo mas desta vez a Velon (associação criada pelas equipes) divulgou rapidamente os dados de potência bem como a própria equipe com o planejamento do ataque. Froome escalou o Finestre com uma média de 397 watts e cadência média de 95rpm, sendo um dos 144 ciclistas que tiveram os dados de potência, cadência e batimentos mostrados em tempo real pela internet.

Em posse desses dados fanáticos do mundo todo puderam estabelecer não só a cronologia do ataque mas a forma como Froome conquistou vantagem, destaco a postagem do finlandês Ammattipyöräily. Com ela é possível chegar a números:

Froome x Dumoulin
Etapa 19 Tempo
Subida do Finestre 42 s
Descida do Finestre 44 s
Falso Plano 21 s
Subida do Sestriere 58 s
Descida do Sestriere 15 s
Falso Plano 24 s
Subida do Jaffereau 01 s

Com essa tabela podemos notar que 59 segundos foram conquistados por Froome em descida, algo que um possível doping não tem efeito. Grandes ciclistas tem qualidade não só técnica mas mental, o ataque de Froome desmontou Dumoulin de tal forma que este não fez o papel de defender sua então virtual liderança. Dumoulin passou a descida do Finestre inteira reclamando do gregário adversário que não o ajudava. Uma falha que permitiu Froome prosseguir com seu ataque, iria Vincenzo Nibali, Alberto Contador permitir esse ataque em descida sem lutar? Ou a Sunweb achava tão improvável que Froome conseguisse tirar 3 minutos que deixou ele ir?

Subida do Finestre

A primeira pergunta é se o desempenho de Froome nas subidas foi sobre-humano, na tabela abaixo estão alguns dos melhroes tempos levantados pela climbing-records, o desempenho de Froome esta mais de um minuto pior que o de Mikel Landa em 2015

Ano Ciclista Tempo
2011 Jose Rujano 01:02:09
2015 Mikel Landa 01:02:51
2015 Hesjedal – Uran – Aru 01:03:26
2015 Zakarin 01:03:34
2011 Purito-Contaodr-Kruijwijk 01:03:44
2011 Nibali 01:03:59
2011 Kiryienka 01:04:00
2018 Froome 01:04:20
2011 Alberto Contador 01:04:22
2018 Dumoulin-Pinot 01:05:03
2018 Pozzovivo-Bennett 01:06:30

Subida do Sestriere

A subida do Sestriere foi o trecho onde Froome mais ganhou tempo em relação a Dumoulin, vejamos os temos de subida em relação a outras edições e vemos Froome quase dois minutos acima do tempo de Fabio Aru em 2015:

Ano Ciclista Tempo
2005 José Rujano 00:21:54
2015 Fabio Aru 00:21:58
2015 Rigoberto Uran 00:22:16
2015 Kruijswik 00:22:32
2011 Purito 00:22:45
2015 Pellizotti-Rosa-Caruso 00:22:54
2018 Froome 00:23:43
2011 Scarponi-Kruijswik-Contador-Menchov 00:23:55
2018 Dumoulin-Pinot 00:24:30

Subida do Jafferau

Na subida final da etapa 19, Froome demonstrava certa dificuldade pelo esforço do dia, ficando um pouco atrás de seus perseguidores, exceto Dumoulin:

Ano Ciclista Tempo
2018 Carapaz 00:24:33
2018 Pinot 00:24:40
2018 Miguel Angel Lopez 00:24:45
2018 Froome 00:24:55
2018 Dumoulin 00:24:56

Conclusão

Não estou aqui para defender ninguém, aliás Froome tem advogados suficientes para tal, o que a somatória desses números nos trás é que Froome não teria tido sucesso neste ataque contra ciclistas em melhor fase como o próprio Fabio Aru de 2015 ou Vincenzo Nibali de 2011, nenhum dos dois é considerado um dopado inveterado. O que lembro é que no topo do Finestre o “vencedor do Giro” ainda era Dumoulin e por uma larga vantagem, a responsabilidade de comandar uma perseguição era exclusivamente dele e de sua equipe. Se a Sunweb não conseguiu colocar um gregário ao lado de Dumoulin e se este não tentou contra-atacar solo ou mesmo convencer Pinot e Reinchenbach a tal não é culpa de Froome. Froome pode ser condenado a perda da Vuelta 2017 a qualquer momento, além de ser punido pelo resultado adverso e até perder o título do Giro, mas até que isso ocorra ele é não só o vencedor do Giro como o detentor do maior ataque que este século viu. Froome para vencer o Giro contou com:

  1. Simon Yates absolutamente quebrar na última semana.
  2. Thibault Pinot com pneumonia não conseguir reagir ao ataque.
  3. Dumoulin abdicar de contra-atacar quando ainda possuía quase 2 minutos de vantagem sobre Froome.

Doping uma reflexão

Já vimos ciclistas caindo no doping mesmo com resultados medíocres na carreira, caso inclusive de ciclistas brasileiros até em vias de se aposentarem que foram flagrados recentemente. Assim doping não é nem nunca foi garantia de sucesso, é bem verdade que até o final da era Armstrong o anti-doping não era muito evoluído, o que permite ao espectador criar uma imagem de ídolo inabalável seja com ciclistas, seja em outros esportes como o futebol. Mas acredite caro leitor o doping faz parte do esporte como o dinheiro faz parte de nossas vidas, desde o princípio. De Fausto Coppi a Eddy Merckx, de Hinault a Contador, todos em algum momento tiveram seu nome relacionado à algum positivo por doping. Após a criação da Wada em 1999 o mundo do esporte passou por uma revolução no antidoping, ainda que distante de esportes que envolvam uma grande quantidade de dinheiro. Futebol, NBA, NFL são mundos a parte, onde o atleta que cai no doping “cometeu um erro e merece disputar a Copa do Mundo”. Enquanto isso no atletismo, natação e ciclismo, o dopado é um pária ainda que sem condenação que é exatamente o caso de Froome.

O salbutamol na quantidade encontrada em Froome em setembro precisa de uma explicação muito, muito boa. No entanto diversos estudos contestam o possível efeito dopante da substancia. Sendo o salbutamol uma das substancias mais controversas no antidoping tendo entrado e saído da lista de proibição diversas vezes. Obviamente regra é regra e quem esta no jogo as deve seguir, mudar após um resultado adverso será uma mancha enorme num esporte com a imagem tão maltratada pelo doping. Assim Froome deve perder a Vuelta e levar uma suspensão. Dizem que um acordo foi proposto para ele e a equipe Sky nesse sentido mas ele pessoalmente optou pelo caminho mais difícil em busca da absolvição total, é um direito dele e cabe ao tribunal julgar.

4 thoughts on “Dissecando Froome

  1. concordo com o que escreveste, o que discuto é o fato de froome estar morto por 17 dias e dar um ataque desses….vale lembrar que ele tomou tempo em quase todas as subidas

    1. Sim, é quase como pegar a performance de Yates (que nunca fez nada nem parecido com as duas semanas de Giro) e inverter com Froome. Já culpam a periodização, pode até ser mas vou suspeitar por princípio.

  2. Bem posto que, no ciclismo, o dopado (ou suspeito) é um pária sem alma. O que Froome faz na última sexta-feira no Giro foi fantástico e está na hora dos que gostam do ciclismo começar a enxergar o esporte com outros olhos. A época de um pelotão inteiramente dopado acabou. Hoje, conseguimos assistir atletas derreterem e outros evoluírem em uma competição de três semanas. Se nutrem antipatia pelo poder econômico da equipe dominante, é uma outra estória.

  3. Super Post!! Froome ganhou na estratégia que uma prova de 3 semana exige nos dias atuais! e era previsível que Yates iria “quebrar”, caso contrario, ele(Yates) é que seria o SuperMan. E Dumolin encarnou o espirito do Valverde de ficar esperando pelos outros.

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