Treinamento Indoor – Parte 2: Onde é a potência pode ser medida? E como?

Treinamento Indoor – Parte 2: Onde é a potência pode ser medida? E como?
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Continuando nossa conversa sobre treinamento indoor, hoje eu gostaria de abordar um assunto mais técnico. Muita gente escolhe o rolo de treinamento “Smart” e, ao ler as especificações, acha que a precisão da medição de potência de 1% está escrita em pedra e vai bater com o seu medidor de potência watt por watt. Só que a história não é bem assim e eu explico o porquê aqui.

Seu medidor de potência está mentindo? Justo 2 vs Garmin Vector 2 e Vector 3 (com Monte Carlo)

Alguma vez você saiu do rolo achando que estava voando, olhou o Strava e pensou: “ué… por que meu FTP ficou esquisito?”
Ou pior: você treina no indoor com um smart trainer e, quando vai pedalar na rua com pedais com medidor de potência, parece que entrou outro ciclista nas suas pernas.

O papo de hoje é exatamente esse: quando você tem mais de um medidor de potência, qual deles você acredita?
E, mais importante: o que fazer quando eles não batem?

Neste estudo de caso eu comparei três fontes de potência:

  • Elite Justo 2 (o rolo, medindo no eixo do trainer),

  • Garmin Vector 2 (pedal com potência),

  • Garmin Vector 3 (pedal com potência).

A ideia aqui não é avaliar marca A ou B, nem discutir marketing. É um assunto mais prático, em que trocamos uma ideia sobre como isso impacta seu treino e seu estado psicológico. Eu logo aprendi, com o saudoso Clythio, que é no treinamento indoor que o ciclista tem uma evolução mais rápida. Foi treinando em rolo livre que eu entendi a minha cadência natural, senti o peso de gerar 250 W, aumentei o VO2 max e aprendi a sofrer, a controlar a dor e a seguir pedalando. Nenhuma dessas coisas tão essenciais ao ciclismo pode também ser aprendida ou desenvolvida na estrada, mas quem tem o tempo contado ou convive com todos os fatores que tornam o treino outdoor, exposto aos elementos, inviável ou perigoso ao longo do ano. E que fique claro que nada substitui o prazer de pegar a bicicleta e sair por aí.

A escolha entre os medidores de potência aqui é interessante, pois compara duas gerações diferentes de pedais da Garmin (uma com pods de transmissão e torque específico e outra modernizada, com eletrônica melhorada, o que facilita a instalação entre bicicletas). Quanto aos rolos de treinamento inteligentes, os modelos podem ter ou não potenciômetros instalados. E, com o desenvolvimento atual dos algoritmos, é praticamente irrelevante afirmar que um é mais preciso do que o outro. Então, eu não vou focar muito nos aspectos técnicos dos medidores, mas sim na sua repetibilidade (confiabilidade) de medição. Lembrando também que a calibração é muito importante devido à variação de temperatura, que afeta significativamente a leitura de potência.

Antes de qualquer análise, duas palavras que salvam amizades

Se você já leu a minha coluna sobre medidores de potência, vai lembrar que existem dois conceitos que sempre se confundem:

  • Precisão: repetir a mesma medida, de forma consistente.

  • Exatidão (acurácia): medir o valor real.

No mundo real, para treinar, um medidor consistente é mais útil do que um medidor teoricamente perfeito, mas instável.
Só que… quando você mistura sensores diferentes no mesmo treino…

Onde se mede a potência é importante, e aí a confusão começa.

Imagem gerada por IA
Figura 1 – Dois pontos para medição de potência.

Na prática, a diferença entre medição e leitura de potência começa no onde e no como: o pedal (seta da direita da Figura 1, no pedivela/pedal) mede a força como torque bem perto da sua perna e combina isso com a cadência para calcular watts, enquanto o rolo/smart trainer (seta da esquerda na Figura 1, na região do cassete, onde a roda seria acoplada ao rolo) lê a potência depois da transmissão, ou seja, já passou por corrente, roldanas e atritos do sistema, que consomem alguns watts. DC Rainmaker costuma lembrar que é normal haver essa diferença devido à perda na transmissão, algo como 2–4% em condições normais (e mais se a corrente estiver suja). Então, se o smart trainer tender a mostrar um número um pouco diferente do do power meter no pedal, isso não significa automaticamente que um deles está errado. Além disso, a leitura que aparece no Garmin/Zwift/Rouvy pode ter filtros e respostas diferentes (suavização por causa do volante de inércia, controle de ERG, atraso de 1–2 s, etc.), então mesmo quando ambos estão certos, eles podem não bater segundo a segundo.

Além das diferenças de leitura devido às perdas na transmissão (o pedal mede antes da corrente e o rolo mede depois dela), ainda há o erro do medidor em siEm geral, bons smart trainers anunciam algo perto de ±1% (o Elite Justo 2, por exemplo, declara desvio <1%), enquanto muitos power meters ficam entre ±1% e ±2% dependendo do modelo e das condições (o próprio DC Rainmaker costuma lembrar que a acurácia declarada e a acurácia no mundo real variam com temperatura, tipo de esforço, firmware, etc.). O ponto-chave é que esses erros podem somar-se à perda mecânica. Se você gera 200 W no pedal, um drivetrain saudável pode entregar algo como 2–3% a menos lá atrás (perto de 194–196 W), e se o pedal estiver bem mantido e com o torque certo (ex.: +2%) e o rolo num dia muito quente ou muito frio (ex.: −1%), a diferença que aparece na tela pode chegar fácil a ~6–7% mesmo com tudo funcionando dentro das tolerâncias; se a corrente estiver suja/desgastada e as perdas subirem (isso acontece, e testes de eficiência mostram que desgaste/atrito aumentam watts perdidos), ou se um dos lados tiver uma tolerância maior/condições piores, você pode ver 8–10% sem necessariamente existir um paradoxo. Parece estranho, mas é perfeitamente lógico: cada sensor mede um ponto diferente do sistema; cada um tem sua margem de erro, e a transmissão no meio pode desperdiçar alguns watts; então, a conta final é a soma desses efeitos, não uma contradição.

Como eu comparei o mesmo treino sem brigar com o relógio?

Os arquivos do smart trainer e dos power meters não começam exatamente no mesmo segundo. Então eu fiz três passos simples:

  1. Sincronizei os treinos no tempo, buscando o melhor offset (adiantando/atrasando em segundos) até as curvas ficarem alinhadas.

  2. Padronizei tudo em 1 amostra por segundo.

  3. Analisei apenas trechos ativos (potência acima de 20 W), para evitar que pausas e coasting dominassem as estatísticas.

Aí vem a parte legal, em que eu não quis olhar apenas para valores médios e sentenciar um resultado. Eu rodei uma análise de Monte Carlo (mais precisamente um block bootstrap, mas essa matemática eu vou poupar o leitor), que basicamente faz o seguinte:

  • Pega trechos de 20 s (blocos) do treino,

  • Embaralha e remonta o “treino” milhares de vezes,

  • E estima o fator k que melhor casa os dados:

Smart Trainer ≈ k × Power Meter

Interpretando:

  • k < 1: o power meter está lendo mais alto do que o smart trainer (para uma função identidade, você multiplica por um número menor que 1).

  • k > 1: o power meter está lendo mais baixo do que o smart trainer.

Ao comparar treinos diferentes, eu percebi o que vinha notando na prática: quando treinava na rua, achava o Vector 2 mais preciso. As Figuras 2 e 3 mostram as curvas do rolo e do PM, sendo a curva azul sempre a do smart trainer. O Garmin Vector 3 teve o torque de instalação medido em 40 N·m, conforme a especificação do fabricante. No Garmin Vector 3, não foi medido o torque de instalação.

Figura 2 – Potência sincronizada: Justo 2 (azul) vs Vector 3 (vermelho).

 

Figura 3 – Potência sincronizada: Justo 2 (azul) vs Vector 2 (vermelho).

Histograma de potências: onde cada medidor mede entre 50–300 W

A análise de Monte Carlo é uma técnica que utiliza muitas simulações para entender a incerteza de um resultado quando o mundo real apresenta variação, ruído e imprevistos. Em vez de confiar em um único número (por exemplo, “a diferença entre dois medidores é X”), você cria milhares de cenários possíveis, repetindo o cálculo com amostras diferentes dos dados ou com pequenas perturbações controladas, e observa como o resultado se comporta. E verifica se o resultado permanece sempre próximo ao mesmo valor ou se varia muito. Assim, a análise de Monte Carlo serve para estimar intervalos de confiançaa probabilidade de erro, a sensibilidade às suposições e até o risco de tomar uma decisão errada. No nosso caso, os medidores de potência ajudam a responder a algo que importa de verdade. E a pergunta a ser respondida é se o PM está consistentemente acima ou abaixo do smart trainer, ou se isso é apenas um pedaço específico do treino, mostrando não só o valor médio do ajuste, mas também o quanto esse ajuste é estável em diferentes trechos e intensidades. A Figura 4 mostra onde ocorre o treino de verdade para a maioria: Z2–Z4.

Figura 4 – Histograma de potência (zoom de 50–300 W).

Agora o que separa opinião de análise.

Vector 2

No conjunto de treinos analisados, o Monte Carlo estimou:

  • k médio ≈ 0,918

  • Intervalo de confiança (95%) ≈ 0,915 a 0,922

Traduzindo para a vida real:

  • Se o Vector 2 mostrar 200 W, o equivalente no smart trainer fica em torno de 184 W
    (200 × 0,918 ≈ 184 W)

Ou seja: diferença de ~16 W (aprox. 8%).

Vector 3

Para o Vector 3:

  • k médio ≈ 1,006

  • Intervalo de confiança (95%) ≈ 0,999 a 1,011

Tradução:

  • Se o Vector 3 mostrar 200 W, o equivalente no Justo 2 fica em torno de 201 W
    (200 × 1,006 ≈ 201 W)

Diferença de ~1 W.

Quando eu rodo a análise de Monte Carlo por faixa de potência (usando o Justo como referência), aparece um padrão (Figura 5).

Figura 5 – Monte Carlo: Fator k por faixa de potência

No Vector 2, o fator k não permanece fixado em um único valor; varia (em geral, entre ~0,89 e ~0,93, nas faixas de boa amostra), o que significa que o “erro” não é perfeitamente constante ao longo das intensidades; já o Vector 3 permanece muito próximo de 1, com variações pequenas. Isso importa porque, se eu tentar “corrigir” o Vector 2 com um único número, pode acontecer de ele ficar excelente em Z2 e, ainda assim, continuar errando um pouco em Z4, ou o contrário, dependendo de onde eu calibrei essa correção.

Como o Vector 3 mede a potência antes da transmissão e o smart trainer mede depois, o mais comum é o pedal aparecer um pouco mais alto, porque a corrente, as roldanas e o cassete consomem alguns watts no caminho. Uma regra prática bem citada é algo como 2–4% de perda na transmissão em condições normais, então em 200 W você poderia esperar algo como +4 a +8 W no pedal em relação ao rolo.

Só que isso não é uma lei fixa, porque entram três coisas na soma: (1) a tolerância dos próprios medidores, que pode fazer um ler um pouco acima e o outro um pouco abaixo mesmo estando dentro do normal; (2) as perdas variam com limpeza/lubrificação/desgaste e até com carga e linha de corrente; e (3) a leitura na tela pode ter filtros, suavização e pequenos atrasos (Bluetooth/ANT+, ERG), o que muda o encaixe segundo a segundo. Por isso, ver o Vector 3 empatar com o smart trainer (ou ficar 1–2 W abaixo ou acima) é perfeitamente plausível; o que acende alerta mesmo é quando a diferença vira grande e consistente (tipo perto de 10% ou mais).

Conclusão

A comparação entre rolo e pedais com medidor de potência precisa ser interpretada com cautela. Mesmo quando ambos os equipamentos são de boa qualidade, é esperado que haja diferenças, pois a potência é medida em pontos distintos do sistema (antes e depois da transmissão), há perdas mecânicas variáveis e cada medidor opera dentro de uma margem de erro. Por isso, não faz sentido esperar concordância “watt a watt” em todos os instantes de um treino, especialmente quando entram filtros, atrasos e modos de controle como o ERG.

Dentro desse contexto, os resultados mostraram que o Vector 3 apresentou maior consistência em relação ao smart trainer, com diferenças pequenas e compatíveis com a soma de tolerâncias e perdas usuais. O Vector 2, por outro lado, ficou sistematicamente acima do rolo e ainda apresentou variação do fator de ajuste conforme a faixa de potência, o que dificulta a aplicação de uma correção única que funcione bem em todas as intensidades. Do ponto de vista prático, a recomendação é definir um referencial de treino (rolo no indoor ou pedal no outdoor) e manter esse padrão ao longo do tempo, evitando misturar fontes de potência sem considerar as diferenças de medição, calibração e condições da transmissão.

Como sempre, obrigado por ler até aqui.
Um grande abraço!


Sobre o autor

Pedro Anselmo Filho, Ph.D., é engenheiro mecânico e pesquisador, com doutorado em combustão pela Universidade de Cambridge e mestrado em energia aplicada pela Universidade de Cranfield. Leciona os cursos de Engenharia Mecânica e de Controle e Automação da Universidade de Pernambuco (UPE). Pedala sem rodinhas desde os 4 anos e é ciclista entusiasta que gosta muito de estudar potência no ciclismo.

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