Paris Roubaix – O Inferno do Norte

Lama, caos, imprevisibilidade. A rainha das clássicas, apontada pela maioria dos ciclistas como a mais dura prova do calendário mundial. Estou falando claro da Paris Roubaix, a prova de 257km entre Compiégne e Roubaix acontece no próximo domingo. Repleta de alternativas a prova terá os principais nomes do ciclismo mundial. A ESPN promete transmissão a partir das 10:00h no canal ESPN2.

Hoje o texto não vai falar sobre a edição 2019 mas sim resgatar um pouco da história dessa que é a 3ª Monumento da temporada de clássicas do ciclismo.

Uma história que começou no século 19

O ano é 1895, dois empreendedores da pequena Roubaix haviam acabado de construir um velódromo. Para a inauguração organizaram um evento com a maior estrela do ciclismo de pista da época, o americano  “Major” Taylor. Entretanto a dupla Theodore Vienne e Maurice Perez queria mais publicidade para o velódromo de sua cidade, e buscaram ajuda do editor Louis Minart, do jornal Le Vélo, o único folhetim diário sobre esportes na França.

Entusiasmado, Minart buscou apoio com seu diretor e homem da grana Paul Rousseau não apenas citando a corrida em si, mas dizendo inclusive que essa prova seria preparatória para uma corrida de quatro semanas entre Bourdeaux e Paris. Para a corrida inaugural em 1896 o prêmio ao vencedor: 1.000 francos. Quantia que aquela época representavam sete meses de trabalho de um trabalhador médio francês.

A Rota entre Paris e Roubaix

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Com Rosseau conquistado, agora o desafio era bolar a rota. Victor Breyer (que posteriormente virou organizador do Tour de France) e Paul Meyan foram fazer o reconhecimento. Chegaram a Amiens a bordo de um Panhard e de lá Breyer seguiu de bicicleta. Após pedalar o dia todo com chuva e vento, Breyer chegou a enviar um telegrama  a Rousseau tentando demove-lo da ideia da prova. Seria desgastante e perigosa demais. Mas nada como  uma boa noite de sono, e um café da manhã com a dupla Vienne e Perez mudou sua mente.

Tudo certo? Calma…ainda havia um problema! Eles haviam marcado a prova para o domingo de Páscoa. E a igreja católica foi contrária a ideia já que o domingo de páscoa é o dia mais importante da liturgia. Nem ciclistas nem público deveriam perder a missa de páscoa.

 

Corrida na Páscoa? E a missa? Calma que pra tudo tem um jeitinho.

A dupla não desistiu e prometeu que a missa seria celebrada para os ciclistas em uma capela ao lado da largada, história confirmada por Pascal Segent, historiador da prova. Contudo os historiadores não revelam porque ainda assim a  prova ocorreu duas semanas após a Páscoa em 19 de abril de 1896. Apenas no ano seguinte a prova passou a ocorrer no domingo de Páscoa.

A primeira prova foi vencida pelo alemão Josef Fischer com Maurice Garin em terceiro. Maurice Garin cujos irmãos haviam aberto uma bike shop em Roubaix era a esperança local, mas ficou famoso por alguns anos mais tarde vencer o primeiro Tour de France. Garin venceria a segunda corrida em Roubaix ao descontar a distância já dentro do velódromo.

Fora o período entre 1919 e 1943 onde a prova terminou em vários locais, a prova sempre terminou no velódromo de Roubaix. O trajeto usualmente parte dos arredores de Paris e termina no velódromo de Roubaix. Desde 1977 a largada se dá em Compiègne, cerca de 85km ao nordeste de Paris.

Abaixo uma das mais espetaculares chegadas da prova em 2013 quando Fabian Cancellara venceu Sep Vanmarcke no Velódromo:

O Inferno do Norte

A região do norte francês sofreu muito com a primeira guerra mundial. Os campos foram devastados por trincheiras e a prova não foi disputada entre 1915 e 1918. Entretanto ao final da guerra em dezembro de 1918, os organizadores entenderam ser fundamental retomar a prova. Jornalistas que foram cobrir a prova na páscoa de 1919 encontraram a paisagem devastada. O jornal L’Auto então escreveu:

Nós entramos no centro do campo de batalha. Não há uma arvore, tudo esta descampado! Nem um metro quadrado pode ser visto sem pensar que esta de cabeça para baixo. São buracos de bala atrás de outros buracos. As únicas coisas que estão em pé nessa terra devastada são as cruzes com fitas em azul, branco e vermelho. Isso é o inferno!

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Com tanta devastação aos poucos o cenário mudou. Atualmente durante as provas há destaque na transmissão para monumentos aos mortos em guerra como em Verdun:

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Após as guerras as cidades começaram a serem reconstruídas. Toda França passou por uma profunda transformação com a criação de auto-estradas. Durante a era do automóvel um bom asfalto passou ser sinal de uma cidade bem cuidada e moderna e assim as sessões em paralelepípedo foram diminuindo. As auto estradas acabaram por diminuir o trânsito das estradas locais assim permitindo a criação do ambiente perfeito para treinos e provas de ciclismo. Estradas sinuosas com bom asfalto e baixo tráfego, mas Paris Roubaix é conhecida pelos paralelepípedos e é sobre eles a sequência desse texto.

Paris Roubaix – Os paralelepípedos

2 thoughts on “Paris Roubaix – O Inferno do Norte”

  1. Texto muito bom, parabéns. Uma pequena correção : “Major” Taylor não era major. Ele ganhou o apelido de “major” porque gostava de competir em uniforme militar no começo da carreira.

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