São Paulo lança plano cicloviário ambicioso. Mobilidade ou lorota eleitoral?

Ontem a prefeitura de São Paulo “vazou” para a imprensa o plano cicloviário da cidade de São Paulo. Uma proposta ousada, unilateral e sem prazo definido. Por mais que o plano vislumbre excelentes soluções ele não explica quando e tampouco com quais recursos de financiamento do sistema. A atual administração da cidade de São Paulo, tem como prefeito Bruno Covas, que herdou o cargo após a renúncia de João Doria Jr para concorrer ao governo estadual. A proposta é de passar dos atuais 468km de ciclovias para quase 2.000km de ciclovias, ciclofaixas e ciclo-rotas no ano de 2028.

Coletiva de imprensa para apresentação do plano cicloviário

Um plano monocrático sem conversa com o ciclo-ativismo

Ressalto que o plano foi estabelecido de modo unilateral com a prefeitura rompendo os canais de comunicação com o ciclo-ativismo. Nas reuniões da Câmara Temática de Mobilidade nem prefeito nem secretário dos transportes apareceram, apenas assessores que sempre esconderam o jogo deixando promessas vazias e sem definição. As únicas realidades que o ciclista paulistano vivencia são o descaso com ciclovias, remoção sem aviso prévio de parte da estrutura cicloviária além do abandono da zeladoria (manutenção) não só das ciclovias mas da cidade como um todo. Tudo isso não faz do plano ruim, mas quando temos pessoas que utilizam e defendem a modalidade de transporte com suas próprias vidas, a razão é dar voz a essas pessoas. Isso seria democracia.

O processo democrático envolve diálogo, diálogo que a prefeitura de São Paulo rompeu nesta administração.

A proposta antecipada pela grande mídia trás pontos do plano sem grande profundidade assim qualquer análise do ponto de vista urbano torna-se prejudicada, especialmente pela ausência de metas e prazos definidos. Nada impede de chegarmos em 2027 sem dotação orçamentária para o programa. Metas ambiciosas podem tornar-se vagas a medida que não há como o cidadão cobrar, é como um certo coronel político brasileiro que ao ser perguntado sobre como pagaria a divida pública responde: – Pagano! (sic)

E é exatamente assim que vejo a proposta, ela tem bons pontos mas não aponta quando, como, e tampouco o preço da estrutura. Soa fortemente como uma proposta de campanha eleitoral ainda que no âmbito municipal a cidade esta na metade do mandato.

Plano cicloviário com olhar para o Transporte periférico

Nem tudo podem ser criticas, o plano cicloviário foi desenvolvido em consultoria com a WRI Brasil, uma organização sem fins lucrativos que trabalha em mais de 50 países e possui cerca de 500 especialistas em diversas modalidades de desenvolvimento econômico, natural com apoio do Banco Mundial. A melhor parte desse plano é olhar mais para a bicicleta como transporte e menos como um objeto de lazer. Assim o plano prevê dois anéis cicloviários um central e outro no centro expandido que possui 2,1 milhões de habitantes e segue em modo axial para a periferia, formando uma rede capilar com a hierarquia proposta.

A parte excelente do projeto é prover vias arteriais como ambas Marginais, avenida dos Bandeirantes, Salim Farah Maluf, Tancredo Neves, Santo Amaro entre outras com ciclovias. Além disso prevê a conexão com equipamentos já existentes, ou seja viabilizar bicicletários em estações de trem e metrô. O que preocupa é a falta de capilaridade, para o ciclista chegar a ciclovia arterial ele precisa ter caminhos práticos quase sempre os mesmos que faria caso estivesse de automóvel.

O grande diferencial do plano cicloviário proposto é ampliar o foco na interligação e permitir conexão com as zonas periféricas da cidade. Alterando a implantação que durante os anos de 2010 a 2016 concentraram em locais com alto poder aquisitivo e nos casos das ciclovias na periferia a falta de conexão com áreas centrais tornou-se um desestímulo ao uso.

Ciclovia, ciclofaixa e ciclo-rota

A hierarquia que o plano propõe institui ciclovias apenas em vias arteriais, aquela em que a velocidade máxima esta acima de 50km/h. A ciclovia é aquela que tem separação física dos automóveis e não pode ser invadida. As vias coletoras são as que passam a receber apenas ciclofaixas, que são pintadas no solo, é proibido estacionar ou parar na ciclovia mas não há separação física para com os veículos automotores. E por fim as polêmicas ciclo-rotas, pois são destinadas a locais com velocidade máxima de até 30km/h, porém no Brasil praticamente nenhum motorista respeita tal limite e a figura do ciclista pintada no chão tem o mesmo valor que promessa de politico antes de eleição: nada.

Ao invés de uma campanha ampla para respeito as normas de trânsito além da própria velocidade máxima a prefeitura sugere implantar “lombofaixas” que são grandes lombadas nas faixas de travessia. A estratégia é boa mas tem um custo maior e menos educativo, pois o motorista continuará avançando sobre faixas de pedestre comuns como se estivesse numa eterna disputa de corrida.

A Remoção de Ciclovias

Com o comprometimento existente da atual gestão é possível atestar que se há uma parte do plano que será rapidamente executada a toque de caixa é a remoção de ciclovias. Assim a administração divulgou as ciclovias a serem “requalificadas” ainda em 2018:

  • Ciclofaixa Costa Carvalho – Implantar ciclofaixa conectando ao Terminal Pinheiros
  • Eixo Estrutural Norte – Projetar ciclovia conectando o centro a Zona Norte
  • Ciclofaixa Fernandes Moreira – Subistituir por ciclofaixa Alexandre Dumas
  • Ciclofaixa Vila Prudente – Substituir por ciclovia Luis Ignácio de Anhaia Melo
  • Ciclofaixa Lopes de Azevedo – Substituir ciclofaixa por ciclo-rota com acalmamento do tráfego
Ciclovia Removida

Podemos dizer que o atual secretário de transportes de São Paulo é o inimigo número um da bicicleta. João Octaviano que foi presidente da CET por longo tempo sempre demonstrou aversão a bicicletas e ciclistas. Assim a cada recapeamento, a cada obra executada a SMT “esquece” a ciclovia e até em equipamentos novos como o Viaduto Doutor Lino de Moraes onde a legislação exige a dotação de ciclovias ele responde secamente a pergunta do porquê de não fazer:

– Não tem porque não deu pra ter!

Viaduto Avenida Doutor Lino de Moraes, a lei exige ciclovia, a prefeitura não executa e secretário de transportes João Octaviano da de ombros.

 

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