A vitória de Philippe Gilbert na Paris Roubaix e suas lições

A Paris Roubaix 2019 sem dúvida foi uma das provas mais sensacionais da temporada. Ao lado da Ronde e Milão Sanremo, a terceira monumento da temporada mostrou mais do que uma prova e assim fica até fácil comentar. Separei cinco aspectos de prova vencida por Philippe Gilbert para trazer ao leitor como destaque.

1.  Determinação para concluir a prova

Edvaldas Siskevicius, de último colocado a Top10!

Nenhuma outra prova na temporada recebe mais respeito pelos ciclistas. Completar a Paris Roubaix é mais que um desafio, é uma obrigação para o ciclista. Nesta edição 10 ciclistas concluíram acima do tempo limite. Ano passado Evaldas Siskevicius concluiu a prova mais de uma hora após o vencedor. Em respeito ao público incentivando ao longo do trajeto ele teve de pedir para abrirem o velódromo para dar a volta final. Nesta edição Alexander Kristoff um dos favoritos a vitória, chegou a quatorze minutos do vencedor. Kristoff furou três vezes, não tinha mais nada a fazer na prova e poderia ter subido no carro da equipe duas horas antes. Mas ele seguiu e concluiu, em respeito ao público e prova.

2. Capacidade de mudança de planos da Deceuninck

Deceuninck Vitória 700

Até entre a mídia especializada não sabia-se exatamente qual era o plano A da Deceuninck. A equipe faz estratégias amplas e com total colaboração de seus ciclistas torna muito difícil para as demais preverem o que farão. Philippe Gilbert trabalhou muito pela equipe em toda temporada de clássicas. Natural que a equipe o ajudasse a conquistar a quarta monumento, mas não seria surpresa se Stybar estivesse em um ataque solo de 50km. Ou então que Lampaert estivesse o dia todo na fuga. Na temporada a Deceuninck venceu até o momento 23 provas com oito ciclistas diferentes. Com a Deceuninck você nunca sabe de onde vem o fogo, muito menos quando.

3. Equipe de Grande Volta x Equipe Clássica

Se por um lado a Deceuninck vem papando tudo nas clássicas, a maior estrutura do ciclismo esta no zero nas clássicas. A equipe Sky que logo mudará o nome para Ineos ganhou apenas cinco etapas em volta na temporada. E mais nada. Porém ainda há equipe pior, a Bahrain de Nibali, Rohan Dennis e companhia tem apenas uma vitória em etapa no Tour de Oman. A resposta para o mistério envolvendo as equipes de grande volta envolve a periodização. O ciclista não consegue manter a performance no topo durante toda temporada, assim é preciso escolher quando serão suas principais competições e fazer uma programação para tal. Então a temporada começa com a escolha dos objetivos, muito treinamento e projeção.

Por isso Froome e Geraint Thomas não disputam vitórias nessa fase da temporada. A turma que disputa classificação geral escolhe ou maio ou julho para o pico de performance. Ou seja, ou Giro ou Tour de France que é quando eles precisam estar no auge.

4. Favoritos, Wout, Sagan e Avermaet!

Antes da prova escrevi um texto apontando alguns favoritos. Citei apenas de passagem o vencedor Philippe Gilbert, o maior vencedor de clássicas na prova. Entre os demais citados a performance mais vistosa foi sem dúvida de Wout Van Aert. O belga aprontou de tudo, após furar e pegar uma bicicleta que não era do seu tamanho perseguiu o pelote por uma hora. Quando conseguiu conectar resolveu trocar a bicicleta, então caiu em uma curva quebrando a coroa grande. Wout seguiu por mais de 100km em uma prova de média acima de 45km/h apenas com a coroinha!

Vi muitos decepcionados com a performance de Peter Sagan, o vencedor de 2018 foi “apenas” o quinto colocado. Sagan comentou que não teve pernas, contudo apesar de não conseguir ficar com Gilbert o eslovaco teve uma ótima performance. Sagan estava na cabeça da prova em todos os momentos decisivos, porém sem conseguir lançar um ataque matador como em 2018.

Greg Van Avermaet, atual campeão olímpico, porém anda devendo. Desde 2017 Avermaet não vence uma prova do Circuito Mundial (World Tour). Nas clássicas é comum ver Avermaet na roda de Sagan ou outro grande favorito, mas os ataques rarearam.

5. Estratégia Vencedora

É fácil elogiar a Deceuninck, entretanto a vitória saiu de um movimento adversário. O bravo alemão Nils Pollit esteve o tempo todo na ponta da prova desde a primeira fuga do dia. E foi Pollit quem lançou o ataque vencedor, vendo Sagan, Wout sem contra-atacar Gilbert capturou o momento e então lançou-se. Pollit estava uns 50m a frente e quando Gilbert o ultrapassou e fez o sinal para revesar eu me aproximei da ponta do sofá e então gritei: – Acabou!

Não sei se Gilbert decidiu sozinho, se Lefevere gritou em seu ouvido, mas a distância e os segundos deixados entre o ataque de Pollit e a reação de Gilbert foram perfeitos. Dali em diante foi trabalhar para consolidar a vantagem eliminando Sagan da disputa. Pollit que ano passado havia sido batido no sprint de uma etapa da Paris Nice por Jerome Cousin não seria e não foi páreo para Gilbert. O alemão por sua veza tinha mais que comemorar do que a lamentar, o segundo lugar na Paris Roubaix foi o melhor resultado de sua carreira. E claro, olho nele que aos 25 anos foi segundo em Roubaix, quinto na Ronde e sexto na E3. A Katusha tem um diamante a ser lapidado.

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